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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Caves («O Barman do Ritz»)

 [quase terminado...]
RECORTE(s):
[2 de fevereiro de 1944]
[...] Frank esperava sentir uma emoção ao reencontrar a sua cave, mas, ao acender a luz, é tomado por uma vertigem. Aquilo não é uma cave, é uma verdadeira caverna de Ali Babá. Devem estar aqui, pelo menos, cem mil garrafas! Tinha-se esquecido de tamanha abundância. Lembra-se agora de que foram precisas seis semanas para mudar tudo de sítio - Luciano havia sido requisitado para ajudar todas as manhãs, e agora Frank percebe porquê. Percebe, sobretudo, que, [....[ se os três alemães puserem as mãos naquele tesouro [...] a pilhagem será quase certa. Mas como escolher? Anda lá, Frank, deixa o instinto falar. Começa com um Krug 1911, uma colheita quase extinta, uma verdadeira peça de museu. Depois, dois meursaults. Guarda cuidadosamente as garrafas na mochila, embrulhando-as em papel kraft [...] Passa pelos vinhos de Bordéus e repara num haut-brion  1921, Acaba por pegar num pétrus 1909. Menos de dois minutos, ainda tem tempo de ir à Borgonha, onde apanha um romanéee-conti 1933. Estava prestes a subir quando ouve aquele sotaque gutural que se tornou tão familiar;
       - E, cá em baixo, o que há?
    E merda. O tenente atarracado está cheio de zelo. Frank sente o pânico a apoderar-se de si. Que lhes vai dizer? Cem mil garrafas - como poderão justificar aquilo? [...]

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 233-234

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

American Beauty («O barman do Ritz»)

 - [R. não era um Barman «típico»...; no ano - de out a out, 85 - 86 -  em que «oficinou» no Bar do H. A. P., histórico, nos REST.es, ouviu vários clientes que tinham lido sobre o hotel, na II Guerra...; atingiu agora a p. 120 desta narrativa situada em «ambiente idêntico»]

RECORTE(s):

[28 de setembro de 1940]
[...] Durante estas horas mortas, resta, felizmente, aperfeiçoar a aprendizagem de Luciano. Não se inventam novas receitas quando não há ânimo, mas podem rever-se os clássicos.
      - [...] A receita de um American Beauty?. Estou a ouvir-te.
      - Primeiro pega-se num copo largo grande - recita Luciano - Verte-se uma colher de chá de creme de menta branca e outra de xarope de romã. Depois junta-se o sumo de uma laranja espremida, meio copo de vermute francês e outro de conhaque. A seguir enche-se com gelo picado e agita-se bem no shaker. Verte-se num copo previamente arrefecido e decora-se com frutas da época. Está bem?
       - Não. Concentra-te. Está a faltar alguma coisa. O segredo.
      - Ah, claro! A especialidade do senhor Meier. Uma lágrima de porto tinto por cima.
      - Isso mesmo. E serves com uma palhinha e uma colher.
      - Claro.
      E agora a receita do Blue Bird. [...] 

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 69

domingo, 15 de setembro de 2024

Libações (primeiras); Beauvoir

   [alcançada a p. 321, na quinta, à tarde, na Luz]

RECORTE(s)

     Não fomos ao cinema. Jacques levou-me ao Stryx, na Rua Huyghens, onde era freguês [...] Ele chamava o criado pelo nome, Michel, e pediu para mim um Martini. Nunca pusera os pés num café e eis que me encontrava à noite num bar, com dois rapazes: para mim era realmente uma coisa extraordinária. As garrafas de cores tímidas ou violentas, as tigelas com azeitonas ou amêndoas salgadas, as pequenas mesas, tudo me espantava [...] Engoli rapidamente o meu cocktail e, como nunca bebera uma gota de álcool, nem sequer vinho, de que não gostava, depressa levantei os pés da terra. Chamei Michel pelo seu nome e expandi-me. [...] Eu falava com os clientes, que eram uns nórdicos jovens e calmos. Um deles ofereceu-me um segundo Martini, que, depois de um sinal de Jacques, despejei atrás do balcão. Para estar à altura, parti dois ou três copos. Jacques ria e eu sentia-me nas nuvens. Fomos ao Vickings. [..] Ensinou-me o póquer de dados e pediu para mim um gin-fizz com muito pouco gim: eu submetia-me amorosamente à sua vigilância. O tempo não existia: já eram duas horas, quando bebi, ao balcão da Rotonde, uma menta verde. À minha volta esvoaçavam rostos surgidos de outro mundo; havia milagres em todas as esquinas. [...]

[sublinhados acrescentados]

Simone de Beauvoir (1908-1986), Memórias de uma menina bem-comportada (1958), 2023, pp. 312-313

sábado, 7 de agosto de 2021

Vinho do Porto, os Ingleses e Camilo Castelo Branco...

 ... por esta ou por outra «ordem», (na 1.a parte da) em Crónica do «Fugas», de Pedro Garcias;

RECORTES:

[...] Ainda hoje se discute sobre as verdadeiras motivações que, em 1884, terão levado Camilo Castelo Branco a desferir um ataque tão violento sobre um inglês tão consensual e estimado no Douro e no país, coroado barão e entronizado para a História como uma das figura lendárias do vinho do Porto e da sua região de origem. [...] [James Forrester.]

Na origem do livro está a publicação, 35 anos antes, de um texto na Westminster Review a condenar o vinho do Porto como, nas palavras de Camilo, “deletério e empeçonhado por acetato de chumbo e outros tóxicos anglicidas”. [...]

Pelos vistos, o autor do texto, anónimo, tinha sofrido na carne a adulteração do vinho do Porto, uma “mixórdia negra”, achando-se, na descrição mordaz de Camilo, “dispéptico, com azias, relaxes intestinais, eructações cloacinas, e o crânio sempre flamejante como suja poncheira, com o encéfalo em combustão de Cognac e casquinha de limão”. O ataque de Camilo é demolidor. “Em Inglaterra os porcos engordam na ceva do arsénico. Que fibras de raça aquela! (…)”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"2-8-6!"

- na sequência da republicação (agora na «Santa») do texto em que A. M. Ribeiro refere Pessoa na  perspectiva de Luís Moitinho de Almeida, foi «reencontrado» um dos artigos que «repete, sem esclarecer definitivamente», o «papel» do Álcool em Pessoa 
- no caso, assinado por Pedro Anunciação, no Público de 11 de Nov. de 2002 - AQUI

Recorte:
[...] Fernando Pessoa viveu grande parte dos últimos 15 anos de vida naquela rua do bairro de Campo de Ourique. Extremamente tímido, crescentemente melancólico, Pessoa trocava umas palavras de circunstância enquanto puxava da garrafinha preta que guardava religiosamente na pasta de cabedal. "2-8-6!", pedia o poeta, enigmático. O senhor Trindade entregava-lhe os fósforos (dois tostões), os cigarros (oito tostões) e a garrafa atestada de bagaço (seis tostões). Pessoa agradecia, com a sua voz de catarro, as palavras cortadas aqui e ali pela tosse. Ele fumava pelo menos 80 cigarros por dia. Bebia como uma esponja. Com a sua reserva de 2-8-6 debaixo do braço, o poeta subia as escadas que conduziam ao seu mundo de papéis, personagens e fantasmas nocturnos.
[...]

sexta-feira, 8 de julho de 2016

«Intratável» - Lucia Berlin

[em S. António; 12.º dia de M;
após a leitura dispersa, a sequencial - atingida a p. 327]

Recorte inicial do conto que Lydia Davis caracteriza como...    - DAQUI

    De noite, na mais profunda escuridão, os bares e as lojas de bebida estão fechados. Ela pôs a mão debaixo do colchão; a garrafa de meio litro de vodka estava vazia. Afastou os lençóis, levantou-se. Tremia tanto que se sentou no chão. Estava a hiperventilar. Se não bebesse nada, começaria com DT ou teria uma convulsão.
     O truque é abrandarmos a respiração e a frequência cardíaca. Mantermo-nos o mais calmos possível até que consigamos deitar mão a uma garrafa. Açucar. Chá com açucar, era isso que se recebia na desintoxicação. Mas ela tremia de mais para se aguentar de pé. Ficou deitada no chão, a inspirar profundamente, como no yoga. Não penses, céus, não penses no estado em que estás senão morres, de vergonha, de AVC. A sua respiração abrandou. Começou a ler lombadas de livros na sua estante. Concentra-te, lê em voz alta. Eduard Abbey, Chinua Achebe, Sherwood Anderson, Jane Austen, Paul Auster, não saltes nenhum, abranda. Quando acabou de ler a parede de livros, sentia-se melhor. Conseguiu levantar-se. Apoiada na parede, a tremer tanto que mal conseguia mexer os pés, conseguiu chegar à cozinha. [...]

Lucia Berlin, Manual para mulheres de limpeza, Alfaguara, 2016, p. 217

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

«Pessoana bêbeda, molhada...» - Castro Mendes

[fecha mais um dia de Envelopes]

PESSOANA BÊBEDA, MOLHADA EM CESÁRIO

Quem deixa a cinza espalhar-se
neste tempo que nos resta?
Bem pode o lume apagar-se,
se ninguém velou na festa...

Bebamos até ao fim
whisky, vinho malvasia,
para nos dar um verso enfim
com pão-de-ló de poesia.

Absinto nos teus braços,
pão-de-ló em malvasia!
Quebremos todos os laços:
beber é mais que poesia!

Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, 2010, p. 55

terça-feira, 12 de maio de 2015

A Mão que suspende o Púcaro

        [...]  «É sabido que Baltasar vai beber, mas não se embriagará. Bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande, como um terramoto profundo que lhe tivesse rachado os alicerces, deixando embora, à superfície, as paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe já encontrada por contrabandistas ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas, bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltasar pega no púcaro cheio de vinho, julga que o vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no ombro, é uma voz que diz, Baltasar, e o púcaro volta à mesa intacto, os amigos sabem que não beberá mais nesse dia.» [...]

José Saramago, Memorial do Convento,51.ª ed., 2011,  pp. 315, 316