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sexta-feira, 2 de junho de 2023

«Todo o bacalhau é espiritual» (M. E. C.)

 - toda e qualquer a referência ao «Bacalhau Espiritual» remete R. para a C. da C. (78-80), para a Chefe Clot. [...] [«e o resto não se diz»]
RECORTE(s) da Crónica de hoje - «A conversa mais portuguesa»:
[...] Assim se dá origem à conversa mais portuguesa que é humanamente verificável:
"Isto está óptimo, mas podia ter mais um bocadinho de bacalhau, não?"
"Cala-te, que levou imenso bacalhau! Foi quase uma posta por patanisca, carago!"
[...]
Porque é que o bacalhau desaparece? Porque é que Deus deixa acontecer coisas horríveis? Porque é que a Milú não gosta do Zé Tó?
O bacalhau desaparece porque é um acto de magia. Aquilo era só um peixinho de lombinho aguado, feito para cozer e dar aos convalescentes. A verdade é que o bacalhau "não está lá". Foram o sal e o sol e a secura extrema que deram uma impressão de solidez e de peso.
Todo o bacalhau é espiritual. Estamos em constante negação dessa verdade. [...]
Miguel Esteves Cardoso, «Público», 02-06-2023

domingo, 25 de abril de 2021

Este não vota porque é boi

[...]  Mas o mundo, por tão grande ser, vive de lances mais dramáticos, para ele têm pouca importância estas queixas que à boca pequena vamos fazendo de faltar a carne em Lisboa, não é notícia que se dê lá para fora, para o estrangeiro, os outros é que não têm esta modéstia lusitana, veja-se o caso das eleições na Alemanha, em Brunswick andou o corpo motorizado nacional-socialista a passear pelas ruas um boi que transportava um cartaz assim rezando, Este não vota porque é boi, havia de ser cá, levávamo-lo a votar e depois comíamos-lhe os bifes, o lombo e a dobrada, até do rabo faríamos sopa. [...]

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis; transcrito da edição de 2016, p. 304

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

«Deus é como o caroço do pêssego...»; «A visão das plantas»

     [...] O espantalho de braços abertos, como um arcanjo apaixonado pelo vento que, tomando as folhas o despenteava. "Nunca é tarde, capitão Celestino." Tarde começa quando? "Mas as ameixas, sr. padre, caem  a tempo e horas. As sardinheiras dão-se todo o ano. Ainda guardo a queimadura da fogueira da roupa da minha mãe, que me cheirava  a banha e a manteiga. Sabe, sr, padre, Deus é como o caroço do pêssego, cianeto, bolor e peçonha. Alguma vez provou uma dessas amêndoas amargas? O mar findou vai para cem anos."

Djaimilia Pereira de Almeida, A visão das plantas, 2020, p. 41