[faltam talvez quatro títulos na BiblioPoéticaJudiciana; hoje, de novo se «reordenou» os existentes e escolheu-se o que segue..., tb. para o «Grupo AA»...]
LIMONADA
Às vezes, o limoeiro está cheio e
não sei que fazer a tanto fruto; de outras vezes, só
um ou outro, mirrado e verde, cresce nos ramos
mais altos, e nem lá chego. A árvore é assim: incerta
como a alma dos humanos. Porém, ao contrário
dela, as folhas conservam a verdura, e renascem
de cada vez que pensamos que o tronco, já seco,
não voltará a encher de folhas os seus ramos. Assim,
em cada ano, vou ver o limoeiro e,
quando está cheio, admiro o amarelo dos frutos que
brilham com o sol quente do verão; ou, nos anos
estéreis, pego nas folhas e tento
sentir, no seu veludo áspero, a memória doce
e azeda do seu sumo. Depois, ao chegar a casa,
corto os limões que não arranquei e espremo-os para
o corpo da alma, sabendo que a árvore me espera,
com os seus ramos intactos, para me dar
conta do estado da terra, e para eu lhe dizer
se aquele sumo que não fiz chegou
para me encher a alma.
Nuno Júdice, O mistério da beleza («Inéditos, Expresso»), 2018, pp. 20-21