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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

«frango à Cafreal» OU «a malícia do jindungo»

 - [de manhã, no RT, atingida a p. 135, de 284]

RECORTE(s):

      Depois de o alferes Campelo ter disciplinado o Zacarias, o soba convidou-o para jantar em sua casa. Tratava-se de uma cubata como as outras, mas tinha o telhado de zinco para mostrar riqueza e prestígio. «O homem cozia lá dentro, o zinco tornava a casa um forno. Casa como quem diz. O chão era de terra e tinha uma única divisão. A mulher fez-nos frango à cafreal mas não se sentou connosco [...] Foi o tête-à-tête mais estranho da minha vida. O soba dava-se ares de importância, entre garfadas, cruzava os braços e erguia o queixo como quem responde que sim, sim, mas eu só lhe dizia banalidades sobre o tempo, a beleza da cubata, [...] A terra debaixo das cadeiras estava escura das pingas do nosso suor e do molho do frango. O molho! Era fogo, era inclemência. Era a malícia do jindungo. E eu tive de comer o frango até ao fim. Enquanto o suor me escorria pela testa, costas, pernas. Enquanto me escorria pelas virilhas. Quando a refeição acabou, o solo estava ensopado. Tínhamos largado o suor das nossas almas. [...]»
                                                  Afonso Reis Cabral, O último avô, pp. 130-131
[OUTRO]

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

«arroz de amêndoas», H. A. Faciolince

- [alcançada a p. 86, de 359]

RECORTE(s)

(...) A rapariga fizera-lhe para jantar, de acordo com as minhas instruções, uma posta de bagre branco cozido, sem sal, mas com muitos coentros, duas batatinhas amarelas também cozidas, com casca (...) e uma salada de alho-francês e tomate verde com vinagre e duas gotas de azeite. Mas a mim fez-me um arroz de amêndoas, fervido em caldo de entrecosto e cebola, que libertava um aroma delicioso, pernicioso, e, em vez de mo servir no prato, como eu lhe pedira, colocou uma travessa inteira do suculento arroz bem no meio da mesa, a uma distância equidistante entre o meu prato e o do Luís. [...] 
     Depois de provar um bocadinho do seu peixe insípido, o Gordo, muito lesto, semicerrou os olhos e alongou o braço, pegou avidamente na colher de servir e, lambendo os beiços, serviu no próprio prato não uma, nem duas, mas quatro colheradas de arroz de amêndoas. Pegou no garfo com uma avidez e uma ânsia que me eram desconhecidas, e começou a encher vorazmente a boca com garfadas repletas desse aromático manjar das Arábias.[...]

[sublinhados acrescentados]

Héctor Abad Faciolince, Salvo o meu coração, tudo está bem, pp. 50-51

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

«Jantar em Alcabideche» (J. M. F. Jorge)

 JANTAR EM ALCABIDECHE

Estavam os meus amigos. E, todos, mais
ou menos bêbados. As mãos brincavam com
as facas, apertavam os copos entre os
dedos, espremiam limão sobre os peixes
grelhados. Os gestos, a alegria
do encontro tornara-os tenros e desajeitados.
Mais do que dirigindo-nos a nós próprios,
fazíamo-lo para uma presença imaginária,
a secreta corrente que cada um unia; e,
mais secretamente ainda, dois e três escondia.
Depois, não há como o álcool,
o vinho branco escolhido – que não fôra
excelente – para fazer querer
ser o eu presente o verdadeiro eu;
e que, até então, sempre permanecera
escondido.
Os meus amigos falam, falam todos ao mesmo
tempo e não se entendem.
E quanto mais querem dizer mais abraços dão.
Riem e chegam mesmo a participar, felizes,
na união em cada um;
meio perdidos no seu sonho de representação
de si, não procuram mais do que provar, e
provar aos outros, uma única coisa: cada um
é o mais fiel naquele jantar,
Eu, quase sempre, permaneci alheio e
olhava-os, como vocês, leitores,
nos estão a olhar agora.

João Miguel Fernandes Jorge, Antologia dos poemas, 2019, p. 75
[comentado em: Frederico Pereira, Um virar de costas sedutor, 2022, pp. 166 - 170]

domingo, 11 de agosto de 2024

«Chocos com tinta»

 RECORTE (s) do Caderno materno:

     Eu estava bastante nervosa, para dizer a verdade, porque ainda não domino bem os costumes espanhóis [...]. Por exemplo: no nosso país, praticamente nunca se come peixe e os uruguaios detestam qualquer coisa que tenha espinhas. Aqui, ficam loucos com uma boa pescada. No Uruguai, o frango é um artigo de luxo e é muito distinto servi-lo num jantar e, aqui, é algo muito comum, quase banal [...]. Depois vem esse hábito espanhol de comer lentilhas, feijões ou grão-de-bico, mesmo nas melhores casas, algo que não ocorreria nem ao último trabalhador da exploração agrícola mais remota do Uruguai. Já para não falar de alguns pratos espanhóis que eu não me atreveria a experimentar nem que estivesse a morrer de fome no meio do deserto, como aqueles chocos com tinta que parecem mergulhados em lubrificante para automóveis, ou uns vermes que, segundo eles, são muito bons e se chamam meixões.

Carmen Posadas, Gervasio Posadas, Hoje caviar, amanhã sardinhas [2008], 2024, p. 54 - 55
[RECORTE]; [OUTRO]; os irmãos em Portugal;

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A última refeição (A ultima lua..., M. L. Sousa)

 «Destapa as terrinas e as cuias, vê condimentado o thiof fresco que lhe mandaram do Senegal, seu pescado predilecto, aquele que entre os peixes mais tem sabor a rocha, costuma dizer, recheado de ervas e pimentas, olha guloso para o arroz amarelo nadando em óleo de palmito, para a tigela de molho avermelhado de malagueta, e sorri. De convido, descobre sob a toalha branca no meio da mesa uma gamela de mandioca, cenoura, batata-doce, inhame e repolho. Serve por ordem: arroz, verduras, peixe e molho. Come sozinho. Mastiga sofregamente, saboreia cada bocado até à raiz da saliva, toma uns goles do vinho ácido argelino, limpa os lábios com um paninho alvo, e compenetra-se como se esta fosse a sua última refeição. Arruma as espinhas num  canto do prato, cobre a sobra com uma ponta da toalha, leva a loiça à cozinha, lava-a na bandeja de plástico dentro da pia, suspende o bule sobre o carvão, serve uma xícara de café como postre e bebe a olhar para a banheira velha de esmalte coberta de folhas podres no quintal. [...]»

     Mário Lúcio Sousa,  A última lua de homem grande, 2022, p. 107;  [OUTRO]

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Arroz de Enguia (Galopim...)

 - Arroz de Enguia... que era de Coelho...

- REcorte da ENTREV.a de hoje, pelos 90 anos...

Foto de família em 1941: António Galopim de Carvalho é o primeiro à esquerda 

Conte-nos lá a história do arroz de enguia que partilhou no Facebook.

[....] A minha avó Mariana era viúva e vivia com dificuldades. Tinha três filhos. Tinha um quintal e ao lado da casa dela vivia uma família com dinheiro. Um coelho fugiu da casa dos ricos para o quintal da minha avó, escondeu-se num canto. Ela fez umas conjecturas em termos da moral, das igualdades e desigualdades sociais. Pegou no coelho e esticou-o, esfolou-o, esquartejou-o e fez um arroz. Quando os rapazes vieram para jantar: “Ó mãe, o que é o jantar?” E ela disse “arroz de enguia”, para os rapazes não dizerem que comeram arroz de coelho. Nós, cá em casa, quando fazemos arroz de coelho, mesmo já os meus netos, dizemos “arroz de enguia”. [...]  - em Video, pelo minuto 3, 20

segunda-feira, 27 de julho de 2020

«O almoço dos barqueiros», Renoir, por Isabel Rio Novo

- pelas 15, em frente à FISIOT da General..., alcançada a p 93:
[reproduzida na VAR da MADR. - 81 a 83...]
«Uma pintura de Auguste Renoir, conhecida como O almoço dos Barqueiros, transporta a Autora para este período alegre na vida de Gustave. A tela mostra 
um grupo de amigos reunidos numa esplanada da Maison Fournaise, uma estalagem na ilha de Chatou, junto ao pequeno cais onde aqueles que passeavam pelo Sena atracavam os barcos durante a pausa para o almoço. Um grupo de figuras risonhas, iluminadas pela luz que jorra da grande abertura da varanda, convive jovialmente. Alguns dos comensais estão de pé, outros sentados, outros reclinados no varadim. Sobre as mesas veem-se frutas maduras e vinhos encetados. As camisolas brancas, sem mangas, de ambos os homens em primeiro plano, bem como a toalha estendida sobre a mesa, refletem a luz, distribuindo-a pela composição. Um deles, o jovem à direita, visto de perfil, sentado ao contrário na cadeira, é, como a Autora bem sabe, Gustave Caillebotte. as feições corretas, mais parecidas com as de René, estão decerto alindadas pelo olhar amigo e generoso de Renoir, porém, o corpo esguio mas musculado corresponde ao do jovem velejador.
      Por vezes, perguntam à Autora deste livro porque faz do tempo passado um dos motivos principais da sua escrita. [...]»
Isabel Rio Novo, Rua de Paris em dia de chuva, 2020, pp. 93-94

segunda-feira, 8 de junho de 2020

«A repartição dos pães»: «pão é amor...»

RECORTES, final:
[...] Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. [...] Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
        Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Clarice Lispector, «A repartição dos pães»

terça-feira, 19 de maio de 2020

«A repartição dos pães»: «NÓS, OS ÁVIDOS»

- mais um excerto do Conto de Clarice:

[...]        Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.               [...]

Clarice Lispector, «A repartição dos pães»

domingo, 17 de maio de 2020

«A repartição dos pães»: A MESA - Lispector

- já há tempo que F. não relia este Conto Clariciano.
[...]
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
[..]
Clarice LIspector

terça-feira, 5 de maio de 2015

Começar + Picasso

Pains et Compotier aux Fruits sur une Table (1908-09), de Picasso

CORTESIA: KUNSTMUSEUM E MUSEU NACIONAL DO PRADO
- Quatro dias depois do regresso de N. Y., Princeso (= «Ícaro dos Tempos de Agora») já está de novo no Ar, rumo a Nice, via Barcelona - por causa da G. da Tap... 

- regressado da Portela, C. «começa« o dia com este quadro - copiado do Público, DAQUI

sábado, 11 de janeiro de 2014

Viagem à Índia + Goa + «Nostalgia» + Paraíso

- Roteiro geográfico, gastronómico e histórico-cultural
- programa «Uma mesa portuguesa... com certeza», de 4 de Janeiro de 2013, na RTP 1 - a Cicerone, descendente de Gama, Margarida Noronha e Távora, diz que «Goa é um Paraíso»

AQUI:
http://www.rtp.pt/play/p1370/e139597/uma-mesa-portuguesa-com-certeza

sábado, 18 de maio de 2013

Laranjada, vinho e toalha de mesa.

[T. tinha conservado a Visão de 11 de Março - que há muito só esporadicamente adquire - por causa desta narrativa, intitulada «Família», em princípio autobiográfica, de José Luís Peixoto]

começa assim:

A toalha de mesa era nova e só se usava nesses almoços de domingo. Havia uma garrafa de laranjada de vidro grosso ao centro da mesa, ao lado do vinho. Antes, o meu pai tinha-me mandado à venda. Levava uma alcofa com duas garrafas vazias. O cheiro do vinho tinto estava entranhado nas paredes. Nessas horas, fim da manhã de domingo, atravessava as fitas e não estava ninguém na venda, só a caixa das pastilhas de mentol e uma cadela que não se incomodava com a minha presença. Tinha de bater com a palma da mão no balcão, que me chegava à altura dos ombros, e, meio tímido, tinha de chamar: Ti Lourenço, Ti Lourenço. Quando chegava, trazia a sua calma e o seu bigode. Trocava a garrafa vazia de laranjada por uma cheia e acertava o gargalo da outra garrafa na torneira do barril. Eu pagava com o número certo de notas de vinte e moedas de cinco escudos.  [...]
e assim termina:
[...] A toalha de mesa é nova. A toalha de mesa é sempre nova.

A LER na CASA da Revista: AQUI



 

domingo, 21 de outubro de 2012

Boca Autopsicográfica


Cartaz mostra Gastón Acurio (de costas) a comandar a orquestra de produtores e cozinheiros que se juntam no festival Mistura

Alexandra Prado Coelho, «Há uma revolução no Peru e começou pela comida», Público, P2, 07-10-2012, pp. 12-19
 
TEXTO (e iimagem): AQUI

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Mesa em Combray

[...] É que,  ao fundo permanente de ovos, de costeletas, de batatas, de compotas, de bolachas, que ela já nem sequer nos anunciava, a Françoise acrescentava - em conformidade  com os trabalhos dos camponeses e dos pomares, com o fruto da maré, com os acasos do comércio, com as gentilezas dos vizinhos e com o seu próprio génio, e tão bem que a nossa ementa [...] reflectia um pouco o ritmo das estações e dos episódios de vida - um rodovalho, porque a vendedora lhe garantira a frescura, um peru, porque tinha visto um bonito no mercado de Roussainville-le-Pin, carnudas alcachofras da horta, porque ainda não no-las tinha preparado daquela maneira, uma perna de carneiro assada porque o ar livre faz um buraco no estômago e ia passar muito tempo até descermos às sete horas, espinafres para variar, alperces porque eram ainda uma raridade, groselhas porque daí a quinze dias já não as haveria, framboesas que o senhor Swann trouxera de propósito, cerejas, as primeiras da cerejeira do jardim [...], queijo cremoso de que eu dantes gostava muito, um bolo de amêndoas porque o encomendara na véspera, um brioche porque era a nossa vez de o oferecer. Quando aquilo tudo acabava, era-nos proposto, preparado expressamente para nós, mas dedicado em especial ao meu pai, que era amador, um creme de chocolate, uma inspiração, uma atenção especial da Françoise, fugidia e leve como uma obra de circunstância, na qual ela pusera todo o seu talento. Quem se recusasse a prová-lo dizendo: «Acabei, já não tenho fome», seria imediatamente humilhado ao nível daqueles brutamontes que, até no presente que um artista lhes oferece de uma das suas obras, olham para o peso e para a matéria, quando o que vale é a intenção e a assinatura. Até deixar uma gota no prato seria uma prova da mesma indelicadeza que levantar-se antes do fim da peça nas barbas de um compositor. [...]

Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 78 – 79

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Porco na banha

Recorte da obra referida em anterior E., em leitura, ainda.

34
        Nico trabalhava com calor nas mãos, alegria constante. Batizaram as crianças na cidade, o menino é Onofre, a menina é Anésia. Os dois de amarelo nos braços de Maria. [...]
        Antônio carregava os Gêmeos por tudo, botava-os nun carrinho de mão e saía para o meio do milharal. [...] Maria deixava, o casal voltava com manha e fome. [...]
        Nico chegava com um tambor de leite grosso, amarelado de gordura, Maria tomava o creme puro. Às vezes trazia um porco abatido na Fazenda, picava a carne e temperava com alho, sal, cheiro-verde e pimenta. Deixava de um dia para o outro e fritava na banha suína. Os pedaços eram guardados em latas de dez litros com a gordura despejada por cima. Todos os dias Maria tirava com a conha os pedaços conservados na banha endurecida. Aquilo dourava o arroz deixando-o solto e brilhante. Tomates em rodela, cebola e pepino. Molho de gordura de porco, limão, pimenta-de-cheiro e sal. Pela tarde, abacate e mamão com rapadura moída, esfarelada dentro da cuia macia da fruta.
       Café o dia todo, mal esfriava no bule se coava outro. [...]

Andréa del Fuego, Os Malaquias, Lisboa, Porto Editora, 2012, pp. 93,94

sábado, 12 de maio de 2012

Sábado - Pães ( A repartição dos)

SUBLIME

Alguns Recortes (- também facilmente este conto pode ser encontrado)

«Pão é amor entre estranhos.»       (aforisma com que o Conto encerra)

“A repartição dos pães”
        Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. [...]
         Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós... Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos. A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
         Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
         Em nome de nada, era hora de comer. [...]

Clarice Lispector (1920 - 1977), in A legião estrangeira (1.ª ed: 1964)

domingo, 6 de maio de 2012

«A janela da cozinha...» - Luísa Costa Gomes

Conto de Luísa Costa Gomes
- que pode ser lido, na íntegra, no endereço colocado após o Recorte inicial [...]

A primeira coisa que embateu nos olhos de Luisinho ao entrar foi a mesa relhena. A grande mesa oval, bem assente no meio da sala, a transbordar de doçaria e delicadezas. E enquanto os outros miúdos se atiçavam uns contra os outros e saltavam aos gritos por cima dos sofás, Luisinho fora o singular a ir direito ao que mais o comovia e especado diante da mesa posta, religioso ficou a deixar entrar pelas retinas toda aquela pompa e grandeza. E viu, destacada do todo, antes do mais a taça de cristal, redonda, muito trabalhada,  da musse de chocolate coberta de nozes; a seu lado, o monumento da tarde, um bolo imenso de claras com morangos e natas batidas, camadas de diversas naturezas sobrepostas, todas elas boas, todas elas harmoniosas, conjugadas num macio cilindro branco que fazia sonhar; vinham depois, deitadas num prato de porcelana chinesa, por cima de uma suspeita de luta entre dragões, as cornucópias, recheadas com doce de ovos. Quase se embaciam os óculos do Luisinho ao contemplar as taças de gelado feito em casa, na máquina de manivela, com sabores de café, de morango, de chocolate, de natas, dispersas sobre a mesa, quase livres de irem para onde lhes apetecesse, mais para junto da travessa dos rolinhos de pão-de-forma com atum e maionese, mais para longe do bolo enfeitado com ziguezagues de natas, por baixo das quais se sabia estarem um pão-de-ló que não podia sem exagero ser mais amarelo e um creme de manteiga pecaminoso Desfalece o coração de Luisinho, imune ao caos infantil a que na sala velozmente se chega, ao passar os olhos sobre os três pratos grandes, cama real das sanduíches aparadas,com fiambre e fuagrá autêntico. Recapitulou, saltando a bandeja dos biscoitos de manteiga, que é comida de miúdo e o palhaço de gelatina, transigência inaceitável ao paladar selvagem. E demorou-se com prazer no bolo que ele já conhecia, musse cozida no forno, coberta de chocolate. Na mesinha de apoio, em formação cerrada, os jarros de limonada com muito gelo, sumo de laranja para os menos exigentes, chá gelado e mazagrã para as mães.

Luisinho saiu do devaneio com a miudagem a chegar-se à mesa. Teve um repentino movimento de irritação e afastou, em dupla cotovelada, dois rapazinhos  gémeos, que repetiram o assalto. Luisinho acabou por se render à evidência de que o arranjo perfeito daquela mesa seria, daí em diante, não mais que uma lembrança. Os bárbaros atacavam as sanduíches, davam cabo do palhaço e descompunham o bolo de claras. [...]

   Luísa Costa Gomes, «A janela da cozinha como argumento moral, in Contos outra vez, Cotovia, 1997, pp. 45 - 52 -     CONTO COMPLETO: AQUI

Eduardo Lourenço:
[...] conto antológico [...] história de um menino bulímico, [...] para quem o mundo tem a consistência de um bolo que ele devora e por quem é devorado, alegoria cruel do nosso mundo de ricos de tudo e de tudo esfomeados»
in «Idos de Setembro», prefácio a Setembro - e outros contos, D. Quixote, 2007, p. 10