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segunda-feira, 18 de maio de 2020

SALADA RUSSA..., Nuno Júdice

SALADA RUSSA COM MAIONESE

Cortadas em pedaços, batatas e cenouras
acrescentam-se a ervilhas e feijão-verde. Depois
de pôr o atum em posta, pode temperar-se
com azeite ou juntar maionese. A natureza
que separou cada bocado desta salada, não
faz parte da ementa, e o resultado
leva-nos a pensar que não é um acaso
a forma como os sabores se juntam,
embora o creme da maioneses possa
fazer com que se abstraia das cores
do conjunto. Uma galáxia de sensações
enrola-nos neste espaço; e o frasco
da maionese roda como a cabeça
de um cometa, enquanto, num intervalo
filosófico, comemos a salada.


Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos, 2010, p.83

domingo, 15 de dezembro de 2019

Pastéis de bacalhau, por Ferreira Fernandes

- crónica de hoje («Ode a uma Obra - Prima»), no «DN», lida num Intervalo dos «Envelopes»
RECORTE:
[...] Os pastéis de bacalhau são um concerto, um todo perfeito, a forma de zepelim, que imaginamos moldada por duas pequenas colheres de prata, um entrar breve na fritura e logo saído, os arrepios da pele tostados, mas ela dourada, a massa num casamento feliz e cebolado, a salsa para marcar levemente e para a vista. Cada uns, uma obra de arte. Bons, como condição obrigatória. E pequeninos porque se sabem parte de uma fiada de outros tão bons. [...]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

«Canja»

277

Os pequenos deuses que dormem nas coisas prosaicas protegem as mais incertas. Isto a propósito de uma canja. Conto. Um dia o mundo desabou-me em cima e uma amiga disse-me: oh, senta-te aí que te vou fazer uma canja com gengibre e hortelã. Fez e eu comi. Depois veio o sono – que é a asa de um anjo – e levou-me pela noite adentro. Convém explicar que o mundo me desaba em cima com regularidade e num destes dias pensei: oh, uma canja, havia de fazer uma canja. Fui procurar nos recessos da arca frigorífica e encontrei com quê. Uma sorte. E umas folhas de hortelã. É certo que nem sempre baixam as asas dos anjos mas soube-me bem.


Ivone Mendes da Silva, Dano e virtude, Língua Morta, 2017 (Julho), p. 132, 133

segunda-feira, 3 de julho de 2017

«o mundo é só fogo e pão cozido» - Herberto Helder

- verso (sétimo) do poema da p. 29 de A morte sem mestre - livro de Maio de 14, que M. se recorda de [...]- 
- «repousou», desde então», num dos «montes» que ocupam o tampo da EScriv. que foi do Princeso, e só hoje lhe foi retirado o celofane, porque foi ouvido esse poema, dito pelo próprio, na «Vida Breve», de 28 de Junho...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

«Fruta e pequeno almoço» - Armando Silva Carvalho


FRUTA E PEQUENO-ALMOÇO
E chega a vez das frutas.
São elas que enobrecem a impureza dos dentes,
as cavidades ocultas,
todo o oco do ouro exibido pelos pobres
em tempos menos austeros, em pequenas rodas da fortuna
que se traz na boca, um açaime com poder.

Sobre a mesa, olho ainda as maçãs no escuro de Clarice,
a outra, inaugural, vermelha, de Sophia, numa pausa em que a escrita
pode ainda derrubar os cálices de ambrósia na cozinha,
e me põe a mastigar o sumo das sílabas
solares.
Porque há o sol sublime
e a manhã ainda é um nome, disse outra poetisa,
surgindo em colação.

Oh, o sopesar das laranjas da infância, sugadas até à casca.
O fabricar dessa música dourada
a plenos pulmões, engasgava-me de vida,
uma tonta criança de triciclo,
tão só a pedalar com os gomos na garganta,
abrindo pela solidão adentro uma estrada só de fruta,
frágeis mãos ao volante, garoto alucinado.

Caminho dividido pela penumbra da sala, pela polpa da memória,
mas escondo eu a faca que reparte,
o gume agudo e bruto,
a sede de justiça nos pomares, a balança infantil
das mãos de deus?
Sentado penso melhor, a sofreguidão fez com que empurrasse  o dia
para o sumo,
apalpo agora o veludo do pêssego,
ensino à língua o sabor do outono, a suave alquimia
das figuras demoradas,
a melodia intrínseca, essa aliança de sabores e saliva,
esse desfazer do eterno sob o céu rapidíssimo
da boca.

Armando Silva Carvalho, A sombra do mar, Assírio & Alvim, 2015 (junho), pp. 15, 16

quarta-feira, 6 de março de 2013

Fugir ao Fisco + Iogurte de Morango - Ana Paula Inácio


Homenagem a 4 poetas e 1 cineasta

Livra-me das tentações
de fugir aos fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo  e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
foda-se!
de morango.

 Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno, 2011 – transcrito de Resumo a poesia em 2011, Fnac, p. 17  (escolha de José Alberto Oliveira)
[na Tela, durante dois dias, enquanto enchiam os Envelopes; dos que olharam, a Maioria «não gostou» - talvez por ser recente, não estar nos «Sacrossantos» P. E.s - contudo, no fim do 4.º Bloco,  M. R. - para T. , a «N. H.»,  copiou-o para o seu Cancioneiro de Mão]
Well

domingo, 12 de agosto de 2012

Fava-Rica

«Crónica Urbana- Beco dos Cavaleiros», Alexandra Prado Coelho, texto, João Catarino, Ilustração, «Revista 2», p. 41, Público, 12-08-2012

Além das referências ao único restaurante - na Mouraria - que ainda a serve e a Manolo Carrera - figura da comunidade Galega de Lisboa que G. conheceu nos idos Quentes de 75 e «adjacentes» -  um Recorte que o «transportou» para a Infância:


     [...]   É uma sopa que nos transporta para o tempo em que os trabalhadores de Lisboa acordavam de madrugada e comiam uma sopa quentinha, trazida pelas mulheres da fava-rica, numa panela protegida dentro de um cesto de verga, à cabeça. E transporta-nos para essa frase, que tanto ouvimos sem a percebermos bem: “…até vir a mulher da fava-rica”.

[…] as pessoas gostavam tanto da sopa que estavam dispostas a esperar o tempo que fosse preciso por ela. E a mulher, nesses tempos antigos, acabava mesmo por aparecer, apregoando: faaaava-riiica! Depois o pregão deixou de se ouvir, e as mulheres da fava-rica sobreviveram apenas em velhas fotos e gravuras. […]

domingo, 17 de junho de 2012

As Meninas de Isabel...

... Allende foram  convidadas por Mestre M. M.
( num «bem esgalhado» texto da própria)              AQUI

quinta-feira, 7 de junho de 2012

sábado, 12 de maio de 2012

Uma galinha

Só o Recorte inicial deste conhecidíssimo conto de Clarice Lispector - acessível, na totalidade, nos mais diversos locais

Uma Galinha, de Clarice Lispector (1920-1977)

             Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
           Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
            Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
            Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
            Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. [...]

in Laços de Família, Editora Nova Fronteira, 15.ª ed. , Rio de Janeiro, 1986, pp. 33-36 [1.ª ed:1960]

Seleccionado por Ítalo Moriconi, figura na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, Rio de Janeiro, Objectiva, 2001, pp. 258-260

sábado, 5 de maio de 2012

Antepastos, II

- Na quarta, M. M. tinha, sobre a Mesa, um livro sobre a Mesa na I. M.;

- Na quinta, na Grande Sala Mort., estava sentada à esquerda de G.;

- À direita, M. C. L. - que tem um filho, literalmente, no Meio, talvez a caminho de conceituada escola na área da REST.:

- Cruzaram-se conversas e M. M. mostrou um dos seus Desportos: criar, fotografar e «estrafegar»

- Esta nova casa «nasce» então para propor leituras várias, mas todas centradas nos motivos acima expostos

- Viva a Mesa Literária.


Antepasto, I

- longa a história;

- dos bebés, a Mitologia familiar contava que inicialmente, durante o Dia,  dormiam na Alcofa, suficientemente perto e longe quer do FOGÃO, quer da MÃE;

- «Casa de Pasto» era o Nome Genérico - a história, hoje, não;

- S. Paulo, Bica, Cais do Sodré, Bairro Alto, Combro, a Geografia;

- No reino dos »COMES E BEBES», então, após cerca de 19-20 anos, mais 15 aproximadamente;

-19 + 15 = 34 -35

-  (Primeira ou Grande) Metade de uma Vida, qualquer que seja o lado «por que se  queira ir»

Aleluia.