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sábado, 13 de setembro de 2025

«a taberna do Pasquino» (Paulo Moreiras)

 - devolvido por Mon., que «desistiu», devido sobretudo aos «contextos» e ao vocabulário «arcaizante»...; de manhã, no RTA, atingida a p. 67 [de 279]

RECORTE(s):

    Naquela noite, a taberna do Pasquino fervilhava de povo, em considerável algazarra e algaraviada, como se participassem num leilão de frangos e bácoros no adro da igreja, em dia de arraial festivo. Bebiam e comiam à tripa forra, petiscando iscas de bacalhau, orelheira com alho e cebola, morcela assada, azeitonas ou farrapos de presunto de porco-montês, o vinho escorria em cornucópia a saciar sequiosas gorgomileiras. Nas mesas jogava-se aos dados ou a jogos acascarrilhados de cartas, como o voltarete ou a arrenegada, com bastante agitação e tumulto, pelas sortes e azares que a fortuna ditava, pelos dinheiros que num ape mudavam de mãos.

                                          Paulo Moreiras, O ouro dos corcundas, p. 63

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

SATÉLITE OU «aroma navegável do cimbalino»; (Inês Lourenço)

 [de um dos dois livros de poesia que vieram na Mala, para a Zmab]

SATÉLITE

Os meus olhos acolhem um bando
de reflexos, invisíveis a horas
mais sombrias, na luz aberta
deste fim de Junho. Vêm ao meu 
encontro os grandes plátanos do
jardim, ameaçados pelas
prováveis escavações do Metro.
Por ora ainda matizam os rostos
dos passantes e a penumbra das
janelas. No passeio das paragens
de autocarro para Ermesinde,
Areosa e outros debruns urbanos,
o volume dos corpos recorta-se
quadriculado pela luz. Seios e
estômagos transferem-me para 
um estranho país de aleitamento e
digestões. Sigo num culpado 
exílio a dobrar a esquina e inclino
os passos para o Satélite, onde 
regresso ao aroma navegável 
do cimbalino.

   Inês Lourenço, Dois cimbalinos escaldados - Vivências Portuenses - Antologia Poética, 2021, p. 17

segunda-feira, 18 de março de 2024

Cafés (No tempo dos); Nuno Júdice

 - poema - lista, de Autores...; sublinhados acrescentados

 NO TEMPO DOS CAFÉS

Entreabri a porta, sem saber o que iria encontrar. As mesas
estavam cheias, e quase não se ouviam as conversas com o ruído
das chávenas, das vozes que vinham dos bilhares, dos gritos de
quem chamava os criados que passavam sem se importarem 
com ninguém. Era um tempo a preto e branco, e talvez fosse 
por isso que o ruy belo olhava à volta a ver se conhecia alguém, 
o alexandre pinheiro torres espreitava para o relógio apenas
para confirmar se estava na hora certa, o augusto abelaira
discutia a literatura francesa com os que preferiam 
a literatura inglesa, como o carlos de oliveira que lia
as irmãs bronte sem se decidir por nenhuma 
delas. Não sei de que lugar da eternidade me falam
como se eu ouvisse o que têm para me dizer. Queria era
perguntar ao ruy o que irá fazer no regresso a madrid, agora
que madrid perdeu a movida, ao alexandre se ainda sabe 
alguma coisa da leonor de almeida, perdida nalgum recanto
da dinamarca, e ao carlos se já escolheu a qual das bronte
irá emprestar a casa que construiu na finisterra. E 
queria empurrar a porta do café, passar por entre a chuva
de meteoros, evitar o buraco negro onde o herberto
helder está escondido, só para que ninguém lhe pergunte
nada, aproveitar para perguntar ao cardoso pires porque
é que nunca tinha escrito um poema, ao contrário
do pessoa, que não era da predilecção do josé gomes
ferreira que, na realidade, ainda tinha o remorso de não 
se ter declarado à florbela. E o que me começa
a fazer falta é o caderno de pautado francês da luiza neto jorge,
a forma pausada como a fiama falava do bernardim,
como se tivesse estado com ele no seu jardim, e aquele horizonte
para lá do tejo onde ficava a outra margem em que ouvi cantar
o zeca afonso com a polícia à porta, e alguns lugares
em que perdi não sei bem o quê ao meter-me no barco
de volta contigo, em vez de fugir para onde me querias
levar. Assim, continuo sem entrar nem sair
desta porta que insiste em não fechar, quando a empurro,
deixando vazia, no café que já não existe, a cadeira
onde me irei sentar.

Nuno Júdice, Uma colheita de silêncios, 2023, pp. 19-20

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Mercearia e Tasca (Ernaux)

 RECORTE(S):

     Um café de clientes habituais, bebedores regulares de antes ou depois do trabalho, cujo lugar era sagrado, equipas de estaleiros, alguns clientes que teriam podido,  com a sua situação, escolher um estabelecimento menos popular, um oficial da Marinha aposentado, um fiscal da Segurança Social, gente pouco senhora de si, portanto. A clientela dos domingos, famílias inteiras para tomar um aperitivo, laranjada para as crianças, por volta das onze horas. À tarde, os velhos do asilo em liberdade até às seis, alegres e ruidosos , entoando canções populares. (...) era evidentemente «uma tasca» para aqueles que nunca teriam posto lá os pés. À saída da fábrica vizinha de roupa interior, as jovens vinham festejar os aniversários, os casamentos, as partidas. Compravam na mercearia pacotes de biscoitos de champanhe, que em seguida rebentavam ruidosamente, e fartavam-se de rir agachadas debaixo da mesa.
    
Annie Ernaux,  Um lugar ao sol seguido de Uma mulher, 2022, p. 39
[outros Recortes: AQUI e AQUI]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

quarta-feira, 29 de maio de 2019

...café manhoso» («Entrei em Londres num...) - Ana Luísa Amaral

LUGARES COMUNS

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)

Entrei em Londres 
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia [...]


Ana Luísa Amaral, poema de Coisas de partir, 1993 - relido das pp. 109-111, de Inversos - poesia 1990 - 2010, após ter sido ouvido na voz da autora

na Entrevista a Raquel Marinho da Série  «O poema ensina a Cair»- RECORTE:
- A poesia serve para quê?

A poesia de facto não serve para nada, não tem uma aplicação prática. Com a poesia não se faz uma mesa, não se constrói uma casa. Mas ela é absolutamente fundamental, porque, como toda a arte, assiste-lhe não o pragmatismo, mas o simbólico, e nós, humanos, precisamos do simbólico, que passa sempre pela nossa relação com os outros. Precisamos dele como precisamos de comer ou de dormir. Porque é sua a dimensão estética, mesmo quando fala do horror ou da crueldade. A poesia, tal como eu a concebo, faz-nos, acredito, melhores pessoas, porque nos move (podendo fazer-nos agir) – e nos comove.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

«O idioma do Café» - J. L. Barreto Guimarães


[é um três (recentes) livros de poesia que veio, para a Zmab, com a lista das 12 Narr.s; também viajou diariamente, entre o GLH e a E. do Paraíso, para leituras dispersas, face à sua amplitude...; 
- o que se transcreve é o último de uma pequena série seleccionada, sobre o MOtivo do Café

20 de Junho

PRIMEIRAS HORAS da manhã. Um Café está sempre à espera, as palavras demoram-se e conversam sobre a mesa, usando o espaço do ar para tocar na fala de outros, contribuindo para criar pelo cruzamento de sílabas, palavras hermafroditas de sentido fragmentário, o idioma do Café.
O burburinho gerado fala uma língua própria, somente inteligível pelo empregado de mesa. Vejo-o serpentear pela sala num jogo de decifração, escutando na mesa da frente a resposta à pergunta lançada na mesa anterior, descodificando murmúrios, traços de inconfidências, irreveláveis segredos.
A moeda sob o recibo vai comprar o seu silêncio.
                                                            
Porto, Café Corcel, 1994-1995
[sublinhados acrescentados]

João Luís Barreto Guimarães, O tempo avança por sílabas, Quetzal, 2019, p. 41 (de Lugares comuns, 2000)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

«Petiscos e Ginjinha» («PAA» de M. J.)

- M. J. pertenceu a um 1.º Bloco de 0910; foi a fase dos CONT., mas também, depois, a (da) estreia de «Metade» do Novo Paraíso (passaram 7 anos e...)
- muito bem «acompanhada» por sensíveis M. + P., que será feito dela?
- (re)localizada a sua «PAA», DOCUM., de 2012;  Tascas... e  COM. TRAD.:



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

«tudo desligado» (Cafés «free wi-fi»)

Outra zona do café [Kibbitznest, em Chicago]
 também repleta de livros e sofás


Cafés livres da [praga da] «REDE»:

«tudo desligado para promover o diálogo»

Curta notícia do OBS, de hoje

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cafés (as histórias dos...)

Café Santa Cruz, Coimbra - DIOGO BAPTISTA
Fotografia de um dos 23 «cafés históricos» - Livro e Roteiro - referenciados em artigo do Público

DAQUI