- [principal leitura do regresso ao GALH e ao «Agosto em Lx» - onde «cheira mal»; narrativa autobiográfica centrada na representação da Infância; alcançada a p. 153. de 203];
RECORTE(s):
O outro assunto que preocupava os meus tios era a alimentação. A minha tia, senhora de um forte sentido prático, sentara-se diante de mim munida de caderno e lápis e foi nomeando os diferentes alimentos, perguntando-me por que razão eu não os comia. Anotava minuciosamente as minhas respostas. Eu não comia :
Carne, porque tem sangue e nervos.
Ovos, porque têm clara.
Leite, porque tem nata. [..]
Laranjas, porque têm fios brancos.
Bananas, porque têm fios amarelos.
Maçãs, porque ficam castanhas, como o cocó.
Batatas, porque têm olhos.
Maçarocas, porque têm barbas.
Gofio, porque me engasgo.
Manteiga, porque tem gordura.
Frangos e galinhas, porque são meus amigos, o que se aplicava, além disso, aos coelhos, aos porcos, às perdizes e aos borregos.
Peixe, porque não fecham os olhos e estão sempre a olhar para mim.
A minha tia não teve um ataque de nervos [...] como acontecia com o resto da família sempre que era preciso dar-me de comer [...] a minha lista de repugnâncias alimentares pareceu-lhe muito natural. «Vamos começar por outro lado», disse-me num tom ponderado. «Vejamos, há algo que gostes de comer?» Respondi logo que sim. «O que é que estás disposta a comer?», perguntou sensatamente a minha tia. E eu, compreendendo a sua bondade, respondi: «Caldo coado e doce de leite»,
Cristina Peri Rossi, A insubmissa, 2026, pp. 21-22
[sublinhados acrescentados]; [OUTRO]