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sábado, 29 de outubro de 2016

«um bacalhau de artista» (Alencar)

- «relembrado» por V. P. V. - AQUI

Recortes:
     [...] No Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas, com luzes; - e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilusões da vida, (...) Do outro lado da mesa, os dois ingleses, correctos nos seus fraques pretos, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenada exuberância de meridional.
     A aparição do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
    - Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens: (...)  Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! [...] Pois vocês hão-de vir um dia destes jantar comigo e há-de vir o Ega, hei-de-vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... [...] O que se quer é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e lá vai à saúde do Ega!
     Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
    - E se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...
    Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. [...]
Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, pp. 248-250

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

«Feijões, couves e toucinho»

«[...] Tinham comido feijões e couves, apartadas as mulheres e de pé, e João Francisco Sete-Sóis foi à salgadeira e tirou um bocado de toucinho, que dividiu em quatro tiras, pôs cada uma em sua fatia de pão e distribuiu em redor. Ficou a olhar alerta para Blimunda, mas ela recebeu a sua parte e começou a comer tranquilamente, Não é judia, pensou o sogro. Marta Maria também olhara, inquieta, depois encarou o marido com severidade, como se estivesse  a recriminá-lo pela astúcia. Blimunda acabou de comer e sorriu, não adivinhava João Francisco que ela teria comido toucinho mesmo que fosse judia, é outra a verdade que tem que salvar.»

José Saramago, Memorial do Convento, Caminho, 51.ª edição, p. 141