sábado, 8 de agosto de 2026

«lista de repugnâncias alimentares» (C. Peri Rossi)

  - [principal leitura do regresso ao GALH e ao «Agosto em Lx» - onde «cheira mal»; narrativa autobiográfica centrada na representação da Infância; alcançada a p. 153. de 203]; 

RECORTE(s):
      O outro assunto que preocupava os meus tios era a alimentação. A minha tia, senhora de um forte sentido prático, sentara-se diante de mim munida de caderno e lápis e foi nomeando os diferentes alimentos, perguntando-me por que razão eu não os comia. Anotava minuciosamente as minhas respostas. Eu não comia :
    Carne, porque tem sangue e nervos.
    Ovos, porque têm clara.
    Leite, porque tem nata. [..]
    Laranjas, porque têm fios brancos.
    Bananas, porque têm fios amarelos.
    Maçãs, porque ficam castanhas, como o cocó.
    Batatas, porque têm olhos.
    Maçarocas, porque têm barbas.
    Gofio, porque me engasgo.
    Manteiga, porque tem gordura.
    Frangos e galinhas, porque são meus amigos, o que se aplicava, além disso, aos coelhos, aos porcos, às perdizes e aos borregos.
    Peixe, porque não fecham os olhos e estão sempre a olhar para mim.
    A minha tia não teve um ataque de nervos [...] como acontecia com o resto da família sempre que era preciso dar-me de comer [...] a minha lista de repugnâncias alimentares pareceu-lhe muito natural. «Vamos começar por outro lado», disse-me num tom ponderado. «Vejamos, há algo que gostes de comer?» Respondi logo que sim. «O que é que estás disposta a comer?», perguntou sensatamente a minha tia. E eu, compreendendo a sua bondade, respondi: «Caldo coado e doce de leite»,
    
     Cristina Peri Rossi, A insubmissa, 2026, pp. 21-22

[sublinhados acrescentados]; [OUTRO]; [OUTRO];