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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

«gente pires, gente manteigueira, gente meia-tigela» - M. do Rosário Pedreira

- no seu «sincronizado» exercício quotidiano de Abertura (literária) do Dia (entre «as 9 e coisa e as 9 e tal»), Maria do Rosário Pedreira faz uma listagem de expressões «figuronas» decorrentes da Cozinha e seus Apetrechos...

- «Na cozinha» - entrada de hoje («9 e 33»)  no «Horas Extraordinárias» - AQUI



sábado, 25 de agosto de 2012

A cozinha de Françoise, parte II


  A pobre Caridade de Giotto [moça de cozinha], como lhe chamava Swann, encarregada pela Françoise de os [espargos] «pelar», tinha-os ao pé de si num cesto, e o seu aspecto era doloroso, como se sentisse todas as desgraças do mundo; as leves coroas de azul-celeste que cingiam os espargos por cima das suas túnicas cor-de-rosa estavam finamente desenhadas, estrela por estrela, tal como no fresco da Virtude de Pádua estão as flores engrinaldadas em redor da fronte ou espetadas no cesto. E entretanto a Françoise fazia girar no espeto um daqueles frangos como só ela sabia assar […]

[…] eu desci à cozinha, era um daqueles dias em que a Caridade de Gioto, muito combalida do seu parto recente, não era capaz de se levantar; a Françoise, agora já sem ajuda, estava atrasada. Quando cheguei lá abaixo estava ela, nos fundos da cozinha que davam para a capoeira, a matar um frango, o qual, com a sua resistência desesperada e muito natural, mas acompanhada pela Françoise fora de si, enquanto esta procurava cortar-lhe o pescoço debaixo da orelha aos gritos de «Maldito animal! Maldito animal!», punha a santa doçura e a unção da nossa criada um pouco menos em evidência do que o faria, no jantar do dia seguinte, pela sua pele bordada a ouro como uma casula e pelo seu molho precioso destilado de um cibório. Depois de morto o frango, a Françoise recolheu-lhe o sangue, que corria sem lhe afogar o rancor, teve ainda um sobressalto de cólera e, contemplando o cadáver do seu inimigo, disse ainda uma última vez: «Maldito animal!» tornei a subir a escada todo  a tremer;  o que me apetecia era que pusessem imediatamente a Françoise na rua. Mas quem me faria os pãezinhos tão quentes, um café tão perfumado e até… aqueles frangos?...   […]

Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 130 – 131
 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

ESPARGOS e a cozinha de Françoise - Parte I

[...] À hora em que eu descia para saber a ementa, já a confecção do jantar tinha começado, e a Françoise, comandando as forças da natureza, agora suas ajudantes, como nos contos de fadas em que os gigantes se  empregam como cozinheiros, activava as brasas, entregava ao vapor batatas para estufar e apurava ao fogo as obras-primas culinárias inicialmente preparadas em recipientes de ceramistas, que iam das grandes cubas, panelas, caldeirões e peixeiras às terrinas para a caça, formas de pastelaria  e potezinhos de natas, passando por uma colecção completa de caçarolas de todas as dimensões. Eu ficava parado a ver em cima da mesa, onde a moça de cozinha acabava de as descascar, as ervilhas alinhadas e contadas como berlindes verdes num jogo; mas o meu fascínio era diante dos espargos, temperados de azul-ultramarino e de cor-de-rosa, e cuja espiga, finamente pincelada de violeta e azul-celeste, se esbate pouco a pouco até ao pé - porém ainda manchado do chão do seu plantio - , através de irisões que não são da terra. Achava que estas tonalidades celestes denunciavam as deliciosas criaturas que se tinham divertido a metamorfosear-se em legumes e que através do disfarce da sua carne comestível e firme nos deixavam detectar, naquelas cores nascentes de aurora, naqueles esboços de arco-íris, naquela extinção de tardes azuis, essa preciosa essência que eu reconhecia ainda quando, durante toda a noite que se seguia a um jantar em que os tivesse comido, elas brincavam, nas suas farsas poéticas e grosseiras como um conto de fadas de Shakespeare, a transformar o meu vaso de noite num vaso de perfume.

Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 129 – 130