domingo, 22 de fevereiro de 2026

MARMELADA («Romance do dia em que se fazia a...»); J. C. de Vasconcelos

 ROMANCE DO DIA EM QUE SE FAZIA A MARMELADA

E chegava o grande dia,
essa doce litania
de fazer a marmelada!

Descascada e bem cortada,
a fruta já aguardava
no panelão do costume,

e já da mercearia
do velho senhor Cabral
viera o açucar branco.

Aceso o fogão de lenha,
começava a pegar o lume.
Minha mãe oficiava
com um vasto instrumental
que na mesa se dispunha:

tabuleiros e tigelas,
facas, pesos e medidas,
mais o papel vegetal

- enquanto pelas janelas
entrava o sol sem cortinas.

Cozida a fruta e passada,
o mesmo peso de açucar
então se lhe acrescentava
- e tudo voltava ao lume.

Poucos minutos depois 
de começar a ferver,
já se sentia o perfume,

e a face da marmelada
num leve ruborescer
de envergonhada pequena,

ia ficando rosada,
ia ficando morena,
bonita que nem vos conto:
um quarto de hora bastava
e ei-la chegada ao ponto.

[...]; [incompleto]

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), pp. 51-54

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