ROMANCE DO DIA EM QUE SE FAZIA A MARMELADA
E chegava o grande dia,
essa doce litania
de fazer a marmelada!
de fazer a marmelada!
Descascada e bem cortada,
a fruta já aguardava
no panelão do costume,
e já da mercearia
do velho senhor Cabral
viera o açucar branco.
Aceso o fogão de lenha,
começava a pegar o lume.
Minha mãe oficiava
com um vasto instrumental
que na mesa se dispunha:
tabuleiros e tigelas,
facas, pesos e medidas,
mais o papel vegetal
- enquanto pelas janelas
entrava o sol sem cortinas.
Cozida a fruta e passada,
o mesmo peso de açucar
então se lhe acrescentava
- e tudo voltava ao lume.
Poucos minutos depois
de começar a ferver,
já se sentia o perfume,
e a face da marmelada
num leve ruborescer
de envergonhada pequena,
ia ficando rosada,
ia ficando morena,
bonita que nem vos conto:
um quarto de hora bastava
e ei-la chegada ao ponto.
[...]; [incompleto]
José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), pp. 51-54
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