domingo, 16 de novembro de 2025

«dia de peixe» («de «O ouro dos corcundas»)

  - [lido pelas manhãs, nos Transp., está a levar tempo a terminar; alcançada a p. 247, de 279]

RECORTE(s):

    Com pompa, o corregedor anunciou a ementa estabelecida para aquela ocasião, que considerava fora de série:
   - [..] hoje não iremos cear carne, mas toda uma ementa realizada à base de peixe, frugal quanto baste, para não incomodar o Senhor na sua infinita graça. mas farta o suficiente para alegrar as escolhas de vossas senhorias.
     O padre benzeu-se ante aquelas sábias e devotas palavras, ao mesmo tempo que o corregedor continuava a desfiar a meada de comestíveis. Sopa de camarões, pastelinhos de ostras e de bacalhau, pescadinhas fritas, robalo à holandesa, rodovalho assado com ervas finas, lampreia de Penacova e um belo goraz guisado compunham o anunciado rol.
     À lampreia, Fernão Pires torceu o nariz, não só incomodado pela ideia de tragar o ferroso sangue do bicho, mas também pelas dúvidas que o inquietavam acerca da honestidade de manducar semelhante alimária em dia de peixe; o certo é que o padre se alumbrou com a ideia do goraz guisado, pois guardava uma particular predilecção por chupar a cabeça dos ditos, com as quais se entretinha, enfunado de orgulho e meninice.

                                        Paulo Moreiras, O ouro dos corcundas, pp 145-146

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