segunda-feira, 19 de outubro de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Frutas (Joana Bértholo)

 [do novo livro de Joana Bértholo]

RECORTE(s): 

[...] A colombiana nunca deixa de ser amável, como o são no geral os colombianos, de trato agradável e solícito, [...] Para a europeia, este visível regozijo de quem a serve não é admissível. É como a natureza deste lugar, insubmissa, é como as cores delirantes de tantos pássaros diferentes, ou a variedade de frutas. Este país possui mais de quatrocentas e trinta espécies de frutas nativas, e onde quer que ela chegue [...] repetem-lhe o mesmo slogan promocional: que poderia experimentar uma fruta nova por dia, todos os dias,  e um ano não chegaria para prová-las todas. [...]

              Joana Bértholo, (de «Quatrocentas e trinta variedades de fruta»), Do amor e de outros fantasmas, 2026 (Setembro), pp. 183

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

«uma bebida muito decadente»

  RECORTE(s):

     Há em Kiev um sítio chamado Cocktail Bar. O nome está escrito em caracteres russos e por isso não sabíamos lê-lo, mas é assim mesmo que se pronuncia, Cocktail Bar. E é como um bar de cocktails americano. Tem um balcão redondo com bancos largos, e é frequentado à noite por alguns jovens de Kiev. Tomam bebidas longas que se chamam cocktails e são lindíssimos. Existe o cocktail Kiev, o cocktail Moscovo, o cocktail Tbilisi e, por estranho que pareça, são sempre cor-de-rosa e sabem muito a granadina.
   Parece que os russos, quando fazem cocktails, acham que quanto mais ingredientes usarem melhor fica o cocktail. Experimentámos um que tinha mais de doze licores. Esquecemo-nos do nome dele. [...] Ficámos um tanto surpreendidos por vermos bares de cocktails na Rússia, uma vez que o cocktail é uma bebida muito decadente. E seguramente os cocktails Kiev e Moscovo são os mais decadentes que alguma vez bebemos.

                John Steinbeck, Um diário russo (com fotografias de Robert Capa), [1948], 2018, 2022, pp. 120-121.

domingo, 6 de setembro de 2026

Moscovo (jantar e almoço)

 - RECORTE(s):
  E ficámos a saber que existem dois tipos de restaurantes em Moscovo: o restaurante de racionamento, [...] e o restaurante comercial, [...]
   O restaurante comercial do Hotel Metropole é magnífico. Tem uma grande fonte no centro da sala. O tecto tem uma altura de cerca de três andares. Há uma pista de dança e um estrado para a orquestra. [...]
    A orquestra, diga-se de passagem, tocava jazz americano mais alto e pior do que alguma vez tínhamos ouvido.[...] 
   O jantar constou de quatrocentos gramas de vodca, uma grande tigela de caviar negro, sopa de couve, bife com batatas fritas, queijo e duas garrafas de vinho. [...] E levou cerca de duas horas e meia a servir, coisa que nos espantou bastante, mas que viríamos a descobrir ser invariável em restaurantes russos. E mais tarde percebemos a razão de tanta demora.

                John Steinbeck, Um diário russo (com fotografias de Robert Capa), [1948], 2018, 2022, pp. 21-22.

      Embora Kiev esteja em grande parte destruída, ao contrário de Moscovo, as pessoas de Kiev não nos pareciam ter a lassidão mortiça das de Moscovo. Não caminhavam curvadas, mas sim de costas direitas, e riam-se na rua. [...] 

    No Hotel Intourist, os nossos anfitriões ucranianos ofereceram-nos um almoço magnífico. Havia tomates e pepinos frescos e maduros, havia peixinhos de escabeche, havia tigelas de caviar, e havia vodca. Comemos peixinhos do Dniepre fritos, e bifes, deliciosamente cozinhados com ervas ucranianas. Havia vinho da Georgia e salsichas ucranianas, que são deliciosas.

                                                                                         pp. 60-61

sábado, 8 de agosto de 2026

«lista de repugnâncias alimentares» (C. Peri Rossi)

  - [principal leitura do regresso ao GALH e ao «Agosto em Lx» - onde «cheira mal»; narrativa autobiográfica centrada na representação da Infância; alcançada a p. 153. de 203]; 

RECORTE(s):
      O outro assunto que preocupava os meus tios era a alimentação. A minha tia, senhora de um forte sentido prático, sentara-se diante de mim munida de caderno e lápis e foi nomeando os diferentes alimentos, perguntando-me por que razão eu não os comia. Anotava minuciosamente as minhas respostas. Eu não comia :
    Carne, porque tem sangue e nervos.
    Ovos, porque têm clara.
    Leite, porque tem nata. [..]
    Laranjas, porque têm fios brancos.
    Bananas, porque têm fios amarelos.
    Maçãs, porque ficam castanhas, como o cocó.
    Batatas, porque têm olhos.
    Maçarocas, porque têm barbas.
    Gofio, porque me engasgo.
    Manteiga, porque tem gordura.
    Frangos e galinhas, porque são meus amigos, o que se aplicava, além disso, aos coelhos, aos porcos, às perdizes e aos borregos.
    Peixe, porque não fecham os olhos e estão sempre a olhar para mim.
    A minha tia não teve um ataque de nervos [...] como acontecia com o resto da família sempre que era preciso dar-me de comer [...] a minha lista de repugnâncias alimentares pareceu-lhe muito natural. «Vamos começar por outro lado», disse-me num tom ponderado. «Vejamos, há algo que gostes de comer?» Respondi logo que sim. «O que é que estás disposta a comer?», perguntou sensatamente a minha tia. E eu, compreendendo a sua bondade, respondi: «Caldo coado e doce de leite»,
    
     Cristina Peri Rossi, A insubmissa, 2026, pp. 21-22

[sublinhados acrescentados]; [OUTRO]; [OUTRO];

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Empadão de marisco à segunda-feira... (M. E. C.)

 - RECORTE da Crónica de ontem: «O empadão do tira-e-põe»

[...] O segredo da restauração, diz o Rogério, é o "tira-e-põe". O empadão de mariscos dele, por exemplo, começa por ser um congeladíssimo empadão de pescada e espinafres que ele descongela – e depois livra de espinafres.
     Faz depois um refogadinho para esses espinafres, dá-lhes uma voltinha e, por fim, acrescenta-lhe gambas frescas. São estas gambas frescas, nacionais, que também serve a peso, em travessas com sal grosso, que dão a graça ao empadão.
     Às vezes também aparecem uns nacos de lavagante (congeladíssimo, claro), uns cotovelos de sapateira... enfim, tudo para dar uma impressão de improviso quotidiano. [...]

terça-feira, 3 de março de 2026

«Limonada», Nuno Júdice

[faltam talvez quatro títulos na BiblioPoéticaJudiciana; hoje, de novo se «reordenou» os existentes e escolheu-se o que segue..., tb. para o «Grupo AA»...]

LIMONADA

Às vezes, o limoeiro está cheio e
não sei que fazer a tanto fruto; de outras vezes, só
um ou outro, mirrado e verde, cresce nos ramos
mais altos, e nem lá chego. A árvore é assim: incerta
como a alma dos humanos. Porém, ao contrário 
dela, as folhas conservam a verdura, e renascem
de cada vez que pensamos que o tronco, já seco,
não voltará a encher de folhas os seus ramos. Assim,
em cada ano, vou ver o limoeiro e,
quando está cheio, admiro o amarelo dos frutos que
brilham com o sol quente do verão; ou, nos anos
estéreis, pego nas folhas e tento
sentir, no seu veludo áspero, a memória doce
e azeda do seu sumo. Depois, ao chegar a casa,
corto os limões que não arranquei e espremo-os para
o corpo da alma, sabendo que a árvore me espera,
com os seus ramos intactos, para me dar
conta do estado da terra, e para eu lhe dizer
se aquele sumo que não fiz chegou
para me encher a alma.

Nuno Júdice, O mistério da beleza («Inéditos, Expresso»), 2018, pp. 20-21

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

«CALDO-VERDE» , J. C. de Vasconcelos

 CALDO-VERDE

Minha pecadora alma se perde,
a começar, sensual e gulosa,
nesse aroma sem par do caldo-verde
fumegante, em ascensão gloriosa

da velha malga para a sensitiva
pituitária. Tenras couves-galegas,
muito finas, sem talos, na água viva
do caldo, pouca batata, apenas

temperada com azeite de boa
qualidade, um fio e mais um fio
que logo se espraiam. Juntar chouriço,

uma só rodela, comer com broa.
Aspiro fundo. provo, sorvo, rio,
canto. Enquanto subo: ao céu, é isso. 

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), p. 35
[a partir de 03;20, «Ensaio», RTP 3, de 26 de FEV]

domingo, 22 de fevereiro de 2026

MARMELADA («Romance do dia em que se fazia a...»); J. C. de Vasconcelos

 ROMANCE DO DIA EM QUE SE FAZIA A MARMELADA

E chegava o grande dia,
essa doce litania
de fazer a marmelada!

Descascada e bem cortada,
a fruta já aguardava
no panelão do costume,

e já da mercearia
do velho senhor Cabral
viera o açucar branco.

Aceso o fogão de lenha,
começava a pegar o lume.
Minha mãe oficiava
com um vasto instrumental
que na mesa se dispunha:

tabuleiros e tigelas,
facas, pesos e medidas,
mais o papel vegetal

- enquanto pelas janelas
entrava o sol sem cortinas.

Cozida a fruta e passada,
o mesmo peso de açucar
então se lhe acrescentava
- e tudo voltava ao lume.

Poucos minutos depois 
de começar a ferver,
já se sentia o perfume,

e a face da marmelada
num leve ruborescer
de envergonhada pequena,

ia ficando rosada,
ia ficando morena,
bonita que nem vos conto:
um quarto de hora bastava
e ei-la chegada ao ponto.

[...]; [incompleto]

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), pp. 51-54

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

«um peru...»

 - crónica de A. P. C., da série «A receita do meu Natal: eu, o meu irmão e um peru recheado de memórias; [memórias da C. de C., e de J. V., de entre Abril de 78 e Dez de 80, tem-nas D., e muitas...]

- RECORTE:
[...} Imagine-se a cena: o Frederico e a Ana à volta de um peru, com seringas na mão, tentando injectá-lo com o líquido (vinho da Madeira, limão, sumo de cebola, manteiga e sal), que, a partir de certa altura, começa a espirrar pelos furinhos feitos inicialmente. É verdade que com a experiência as coisas melhoram, mas ainda é um teatro. Isto para não falar (para já) do recheio. [...]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

«frango à Cafreal» OU «a malícia do jindungo»

 - [de manhã, no RT, atingida a p. 135, de 284]

RECORTE(s):

      Depois de o alferes Campelo ter disciplinado o Zacarias, o soba convidou-o para jantar em sua casa. Tratava-se de uma cubata como as outras, mas tinha o telhado de zinco para mostrar riqueza e prestígio. «O homem cozia lá dentro, o zinco tornava a casa um forno. Casa como quem diz. O chão era de terra e tinha uma única divisão. A mulher fez-nos frango à cafreal mas não se sentou connosco [...] Foi o tête-à-tête mais estranho da minha vida. O soba dava-se ares de importância, entre garfadas, cruzava os braços e erguia o queixo como quem responde que sim, sim, mas eu só lhe dizia banalidades sobre o tempo, a beleza da cubata, [...] A terra debaixo das cadeiras estava escura das pingas do nosso suor e do molho do frango. O molho! Era fogo, era inclemência. Era a malícia do jindungo. E eu tive de comer o frango até ao fim. Enquanto o suor me escorria pela testa, costas, pernas. Enquanto me escorria pelas virilhas. Quando a refeição acabou, o solo estava ensopado. Tínhamos largado o suor das nossas almas. [...]»
                                                  Afonso Reis Cabral, O último avô, pp. 130-131
[OUTRO]

terça-feira, 25 de novembro de 2025

«Jantar de Gala» (de «O Barman do Ritz»)

 - RECORTE(s):

[16 de agosto de 1940]
[...] Do outro lado da Galeria das Maravilhas, estão todos reunidos no Salão Vendôme. onde o embaixador nazi em Paris, Otto Abetz, dá um jantar de gala em honra da nova amizade franco-alemã. [...] Vieiras salteadas com creme de açafrão como entrada, ovos de codorniz escalfados com caviar - Frank roubou dois na cozinha, deliciosos - , noisettes de borrego Eduardo VII, puré de alcachofra e nabos novos glaceados, acompanhados de Château Ausone de 1900. Para terminar, um crocante de calvados e o seu granizado de Fine de Champagne, com uma taça de Roederer Cristal.

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 55

domingo, 16 de novembro de 2025

«dia de peixe» («de «O ouro dos corcundas»)

  - [lido pelas manhãs, nos Transp., está a levar tempo a terminar; alcançada a p. 247, de 279]

RECORTE(s):

    Com pompa, o corregedor anunciou a ementa estabelecida para aquela ocasião, que considerava fora de série:
   - [..] hoje não iremos cear carne, mas toda uma ementa realizada à base de peixe, frugal quanto baste, para não incomodar o Senhor na sua infinita graça. mas farta o suficiente para alegrar as escolhas de vossas senhorias.
     O padre benzeu-se ante aquelas sábias e devotas palavras, ao mesmo tempo que o corregedor continuava a desfiar a meada de comestíveis. Sopa de camarões, pastelinhos de ostras e de bacalhau, pescadinhas fritas, robalo à holandesa, rodovalho assado com ervas finas, lampreia de Penacova e um belo goraz guisado compunham o anunciado rol.
     À lampreia, Fernão Pires torceu o nariz, não só incomodado pela ideia de tragar o ferroso sangue do bicho, mas também pelas dúvidas que o inquietavam acerca da honestidade de manducar semelhante alimária em dia de peixe; o certo é que o padre se alumbrou com a ideia do goraz guisado, pois guardava uma particular predilecção por chupar a cabeça dos ditos, com as quais se entretinha, enfunado de orgulho e meninice.

                                        Paulo Moreiras, O ouro dos corcundas, pp 145-146

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Caves («O Barman do Ritz»)

 [quase terminado...]
RECORTE(s):
[2 de fevereiro de 1944]
[...] Frank esperava sentir uma emoção ao reencontrar a sua cave, mas, ao acender a luz, é tomado por uma vertigem. Aquilo não é uma cave, é uma verdadeira caverna de Ali Babá. Devem estar aqui, pelo menos, cem mil garrafas! Tinha-se esquecido de tamanha abundância. Lembra-se agora de que foram precisas seis semanas para mudar tudo de sítio - Luciano havia sido requisitado para ajudar todas as manhãs, e agora Frank percebe porquê. Percebe, sobretudo, que, [....[ se os três alemães puserem as mãos naquele tesouro [...] a pilhagem será quase certa. Mas como escolher? Anda lá, Frank, deixa o instinto falar. Começa com um Krug 1911, uma colheita quase extinta, uma verdadeira peça de museu. Depois, dois meursaults. Guarda cuidadosamente as garrafas na mochila, embrulhando-as em papel kraft [...] Passa pelos vinhos de Bordéus e repara num haut-brion  1921, Acaba por pegar num pétrus 1909. Menos de dois minutos, ainda tem tempo de ir à Borgonha, onde apanha um romanéee-conti 1933. Estava prestes a subir quando ouve aquele sotaque gutural que se tornou tão familiar;
       - E, cá em baixo, o que há?
    E merda. O tenente atarracado está cheio de zelo. Frank sente o pânico a apoderar-se de si. Que lhes vai dizer? Cem mil garrafas - como poderão justificar aquilo? [...]

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 233-234

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

«A última ceia», M. do R. Pedreira

 - [foi há um ano...];

- um dos poemas dito e comentado em «O Amor é», de 26 de OUT, «As palavras de José Cardoso Pires e de Maria do Rosário Pedreira»

A Última Ceia

Trouxe as palavras e colocou-as sobre a mesa.
Trouxe-as dentro das mãos fechadas (alguns disseram
que apenas escondia as feridas do silêncio).

Pousou-as na mesa e começou a abri-las devagar,
tão devagar como passa o tempo quando o tempo
não passa. E depois distribuiu-as pelos outros,
multiplicou-se em dedos, em palavras (alguém disse
que chegariam a todos, ultrapassariam os séculos e 
teriam a duração do tempo quando o tempo perdura).

Ceou com todos pão que não levedara e vinho áspero
das videiras magras do monte que os ventos dizimavam.
Quando se ergueu, havia ainda palavras sobre a mesa,
coisas por dizer no resto do pão que alguém deixara
feridas fundas nas mãos que fechou em silêncio e devagar.

Perto dali uma figueira florescia. À espera.

                Maria do Rosário Pedreira, Poesia reunida, 2012, p. 22 (de A casa e o cheiro dos livros, 1996)

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

American Beauty («O barman do Ritz»)

 - [R. não era um Barman «típico»...; no ano - de out a out, 85 - 86 -  em que «oficinou» no Bar do H. A. P., histórico, nos REST.es, ouviu vários clientes que tinham lido sobre o hotel, na II Guerra...; atingiu agora a p. 120 desta narrativa situada em «ambiente idêntico»]

RECORTE(s):

[28 de setembro de 1940]
[...] Durante estas horas mortas, resta, felizmente, aperfeiçoar a aprendizagem de Luciano. Não se inventam novas receitas quando não há ânimo, mas podem rever-se os clássicos.
      - [...] A receita de um American Beauty?. Estou a ouvir-te.
      - Primeiro pega-se num copo largo grande - recita Luciano - Verte-se uma colher de chá de creme de menta branca e outra de xarope de romã. Depois junta-se o sumo de uma laranja espremida, meio copo de vermute francês e outro de conhaque. A seguir enche-se com gelo picado e agita-se bem no shaker. Verte-se num copo previamente arrefecido e decora-se com frutas da época. Está bem?
       - Não. Concentra-te. Está a faltar alguma coisa. O segredo.
      - Ah, claro! A especialidade do senhor Meier. Uma lágrima de porto tinto por cima.
      - Isso mesmo. E serves com uma palhinha e uma colher.
      - Claro.
      E agora a receita do Blue Bird. [...] 

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 69

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

«Estar a morrer de sede!» (M. E. C.)

 - Recorte(s) da Crónica de hoje de M. E. C., «O jejum dos malandros»:
[...]
É um desperdício matar um jejum com sopa e pão. É esse o papel da sopa: assassinar o apetite da forma mais barata e estofadora, para o comensal partir já cheio para os petiscos mais dispendiosos que se seguem.[...]
Deveríamos ordenar o apetite como um cartaz de cinema: a estrela da refeição tem de ocupar o primeiro lugar, seguido, por ordem de estrelato, pelo resto do elenco.[...] O estúpido do organismo ainda não saiu das cavernas. Está sempre convencido de que estamos à beira de morrer de fome: exploremo-lo enquanto podemos [...]

sábado, 13 de setembro de 2025

«a taberna do Pasquino» (Paulo Moreiras)

 - devolvido por Mon., que «desistiu», devido sobretudo aos «contextos» e ao vocabulário «arcaizante»...; de manhã, no RTA, atingida a p. 67 [de 279]

RECORTE(s):

    Naquela noite, a taberna do Pasquino fervilhava de povo, em considerável algazarra e algaraviada, como se participassem num leilão de frangos e bácoros no adro da igreja, em dia de arraial festivo. Bebiam e comiam à tripa forra, petiscando iscas de bacalhau, orelheira com alho e cebola, morcela assada, azeitonas ou farrapos de presunto de porco-montês, o vinho escorria em cornucópia a saciar sequiosas gorgomileiras. Nas mesas jogava-se aos dados ou a jogos acascarrilhados de cartas, como o voltarete ou a arrenegada, com bastante agitação e tumulto, pelas sortes e azares que a fortuna ditava, pelos dinheiros que num ape mudavam de mãos.

                                          Paulo Moreiras, O ouro dos corcundas, p. 63

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

SATÉLITE OU «aroma navegável do cimbalino»; (Inês Lourenço)

 [de um dos dois livros de poesia que vieram na Mala, para a Zmab]

SATÉLITE

Os meus olhos acolhem um bando
de reflexos, invisíveis a horas
mais sombrias, na luz aberta
deste fim de Junho. Vêm ao meu 
encontro os grandes plátanos do
jardim, ameaçados pelas
prováveis escavações do Metro.
Por ora ainda matizam os rostos
dos passantes e a penumbra das
janelas. No passeio das paragens
de autocarro para Ermesinde,
Areosa e outros debruns urbanos,
o volume dos corpos recorta-se
quadriculado pela luz. Seios e
estômagos transferem-me para 
um estranho país de aleitamento e
digestões. Sigo num culpado 
exílio a dobrar a esquina e inclino
os passos para o Satélite, onde 
regresso ao aroma navegável 
do cimbalino.

   Inês Lourenço, Dois cimbalinos escaldados - Vivências Portuenses - Antologia Poética, 2021, p. 17

      [entrevista, a 21 de Agosto de 2026, no «Ípsilon»]

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

«O mais velho cozinheiro...»

 - Crónica de Luís Osório, no «Postal do Dia» - Adriano Jordão evoca o «peixe cozido que tanto trabalho deu num restaurante de luxo...»]; [AQUI, no YT, também]; + artigo na «Mensagem de Lisboa» (Maio)