segunda-feira, 11 de abril de 2022

«a omeleta», Egito Gonçalves

 - R. diz, «a toda a gente», que está a «desacumular», carregando «sobras», e não só, para as (duas) «Mesas das Trocas» (a da «302» e a da «Máq. de Café»...); 
- ao mesmo tempo «rearruma-se» o entretanto «(re)acumulado»;- nesta tarde, enquanto decorria o «LENTO» «CdeT» do 3.º Bloco [das 17 às ...], «saltou» este poema de Egito Gonçalves, da (recente) antologia abaixo identificada [...]

a omeleta

Abrimos a janela por onde se insinua
uma forma de vento: instala-se
na cozinha um convite de amor. A luz
crepita para que os pêssegos madurem
e a panela canta como se olhasses 
o rio; pico a cebola
como se gradasse a terra, beijo-te
a nuca, as batatas aparecem descascadas;
um pássaro chilreia no ar do jardim
como se fosse ele o nosso coração. Um anjo
vela o saco das compras, um saco de plástico
onde embainhámos a geada das sombras, ali
poderão roer longamente as unhas.
Respiro-te. [...]
[incompleto]

Egito Gonçalves, O esperado fim do mundo já partiu - Uma antologia, Língua Morta, 2020, p. 50

sexta-feira, 11 de março de 2022

Ameixa seca (Balada da); O'Neill

 BALADA DA AMEIXA SECA

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

O mal do Ocidente – quem há que não o sinta? –
é não ter a tripa sempre limpa.

Com seus altos valores, o Ocidente
dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:
dão melhores guerrilheiros do que nós.

Um saquitel de arroz, uma biciclet’,
arma na bandoleira – e lá vai o viet.

«Noss’povo», ao contrário, come o que apanha à mão.
Até parece fome de muita geração!

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.
Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,
«Noss’povo» já nada tem de marinheiro.

Sua tripa, represa, é trabalhosa.
Sua prosápia já só é má prosa.

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas
manda cortiça, vinho, diplomatas.

Espera contrapartidas: sol-e-vistas
é cartaz que atrai muitos turistas.

Mas com a ameixa seca – coisa pouca! –
é que pode acordar sem amargos de boca.

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P´ra o intestino a ameixa é levada da breca!


de As horas já de números vestidas, 1981; copiado daqui: 


https://alexandreoneill.bnportugal.gov.pt/as-horas-ja-de-numeros-vestidas/

sábado, 23 de outubro de 2021

Cabidela (o sangue para a), Nuno Júdice

 PRELÚDIO E VARIAÇÕES

Quando as cozinheiras cortavam o pescoço
da galinha e deixavam o sangue correr para
uma tigela de barro, uma agarrava a cabeça e a outra
prendia as asas. Assim, a operação era feita
com toda a limpeza, e eu via os olhos da galinha
perderem a cor até ao instante em que a faca
chegava ao fim, separando a cabeça
do corpo. Ainda nessa manhã, eu tinha visto
a mesma galinha no pátio, atrás do milho que lhe 
atiravam, com a felicidade de nem sonhar 
com o que lhe ia acontecer. De qualquer modo,
explicou-me um biólogo, as galinhas não sonham,
o que explica o facto de não voarem, apesar de
terem asas como as águias ou os anjos. É
por isso que o filósofos, que sonham o ideal
e a abstracção, se parecem com as galinhas: de
que lhes servem as asas do pensamento
se, tal como as aves de capoeira, não saem
do chão? E pergunto-me se não teria sido por isso que,
na revolução francesa, houve quem confundisse
os filósofos com as galinhas cortando-lhes as cabeças,
embora com o desperdício de não guardarem 
o sangue para a cabidela. 

Nuno Júdice, Navegação do acaso, D. Quixote, 2013, p. 60 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

«Carnes Gordas»; Ana Cássia Rebelo

 Carnes gordas

    Desmembrei, desmanchei e desossei. Guardei as carnes magras na arca frigorífica, separadas em doses individuais. Salguei as carnes gordas. Ao longo de um ano preparei refeições variadas. Feijoadas, croquetes, suflês, cozidos simples, mas também pratos étnicos de difícil confecção. Com as miudezas fiz canjas perfumadas. Cozinhei os miolos à moda alentejana – primeiro fritos em banha, depois misturados com pão e sumo de laranja. Uma autêntica iguaria. Num domingo de muito sol, resolvi cozinhar para as mulheres do apartamento, sete ao todo, duas marroquinas, uma brasileira, três dominicanas e eu. Servi um guisado apurado com nabos, cenouras e batatas novas. A brasileira encheu o prato três vezes. Alegres do vinho, animadas, cantámos canções da Beyoncé, da Rihanna e da Dua Lipa. Foi um domingo bem animado. Tive especial atenção à preparação do coração. Depois de muito ponderar, decidi laminá-lo em fatias muito finas com uma faca santokuTemperei-as com limão, mostarda, molho inglês e, em carpaccio, servi-as com cuscuz. [...]    [Micro-conto, incompleto]

Ana Cássia Rebelo, Babilónia, 2021, pp. 63-64

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Arroz de Enguia (Galopim...)

 - Arroz de Enguia... que era de Coelho...

- REcorte da ENTREV.a de hoje, pelos 90 anos...

Foto de família em 1941: António Galopim de Carvalho é o primeiro à esquerda 

Conte-nos lá a história do arroz de enguia que partilhou no Facebook.

[....] A minha avó Mariana era viúva e vivia com dificuldades. Tinha três filhos. Tinha um quintal e ao lado da casa dela vivia uma família com dinheiro. Um coelho fugiu da casa dos ricos para o quintal da minha avó, escondeu-se num canto. Ela fez umas conjecturas em termos da moral, das igualdades e desigualdades sociais. Pegou no coelho e esticou-o, esfolou-o, esquartejou-o e fez um arroz. Quando os rapazes vieram para jantar: “Ó mãe, o que é o jantar?” E ela disse “arroz de enguia”, para os rapazes não dizerem que comeram arroz de coelho. Nós, cá em casa, quando fazemos arroz de coelho, mesmo já os meus netos, dizemos “arroz de enguia”. [...]  - em Video, pelo minuto 3, 20

sábado, 7 de agosto de 2021

Vinho do Porto, os Ingleses e Camilo Castelo Branco...

 ... por esta ou por outra «ordem», (na 1.a parte da) em Crónica do «Fugas», de Pedro Garcias;

RECORTES:

[...] Ainda hoje se discute sobre as verdadeiras motivações que, em 1884, terão levado Camilo Castelo Branco a desferir um ataque tão violento sobre um inglês tão consensual e estimado no Douro e no país, coroado barão e entronizado para a História como uma das figura lendárias do vinho do Porto e da sua região de origem. [...] [James Forrester.]

Na origem do livro está a publicação, 35 anos antes, de um texto na Westminster Review a condenar o vinho do Porto como, nas palavras de Camilo, “deletério e empeçonhado por acetato de chumbo e outros tóxicos anglicidas”. [...]

Pelos vistos, o autor do texto, anónimo, tinha sofrido na carne a adulteração do vinho do Porto, uma “mixórdia negra”, achando-se, na descrição mordaz de Camilo, “dispéptico, com azias, relaxes intestinais, eructações cloacinas, e o crânio sempre flamejante como suja poncheira, com o encéfalo em combustão de Cognac e casquinha de limão”. O ataque de Camilo é demolidor. “Em Inglaterra os porcos engordam na ceva do arsénico. Que fibras de raça aquela! (…)”.

domingo, 25 de abril de 2021

Este não vota porque é boi

[...]  Mas o mundo, por tão grande ser, vive de lances mais dramáticos, para ele têm pouca importância estas queixas que à boca pequena vamos fazendo de faltar a carne em Lisboa, não é notícia que se dê lá para fora, para o estrangeiro, os outros é que não têm esta modéstia lusitana, veja-se o caso das eleições na Alemanha, em Brunswick andou o corpo motorizado nacional-socialista a passear pelas ruas um boi que transportava um cartaz assim rezando, Este não vota porque é boi, havia de ser cá, levávamo-lo a votar e depois comíamos-lhe os bifes, o lombo e a dobrada, até do rabo faríamos sopa. [...]

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis; transcrito da edição de 2016, p. 304

sábado, 13 de março de 2021

«Esplanadar»; M. António Pina

 - (cada vez mais) adepto fervoroso do «Esplanadar», mas do «Solitário», E.
aguarda o «curioso» CAL. que aí vem: sistema 4x4 a partir de 5 de Abril, com o Interior ainda Vedado aos «desmascarados»...[...]

Reabertura das ESPLANADAS em Paris;
de dossiê da Visão, a meio de Maio
Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


Manuel António Pina, transcrito da p. 155 de Todas as palavras - poesia reunida, reimpressão de 2015; de Um sítio onde pousar a cabeça, 1991

Lido por Fernando Alves, em «O poema ensina...», em 6 de DEZ de 2024 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

«O meu porco Rosalina...», Ana Hatherly

 - voltar a «tisanas», uma Década depois...; e não é que resulta sempre, é como se fosse (outra vez) a primeira vez?  

[por onde andará Mia, a Qd.a que a visitou em 0910?]

«Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.»                                                                     p. 30

ana hatherly, 463 tisanas, Quimera, 2006

«Vibrant Hands», 2019, Patrícia Lino - «sobre» 12 Tisanas...

segunda-feira, 27 de julho de 2020

«O almoço dos barqueiros», Renoir, por Isabel Rio Novo

- pelas 15, em frente à FISIOT da General..., alcançada a p 93:
[reproduzida na VAR da MADR. - 81 a 83...]
«Uma pintura de Auguste Renoir, conhecida como O almoço dos Barqueiros, transporta a Autora para este período alegre na vida de Gustave. A tela mostra 
um grupo de amigos reunidos numa esplanada da Maison Fournaise, uma estalagem na ilha de Chatou, junto ao pequeno cais onde aqueles que passeavam pelo Sena atracavam os barcos durante a pausa para o almoço. Um grupo de figuras risonhas, iluminadas pela luz que jorra da grande abertura da varanda, convive jovialmente. Alguns dos comensais estão de pé, outros sentados, outros reclinados no varadim. Sobre as mesas veem-se frutas maduras e vinhos encetados. As camisolas brancas, sem mangas, de ambos os homens em primeiro plano, bem como a toalha estendida sobre a mesa, refletem a luz, distribuindo-a pela composição. Um deles, o jovem à direita, visto de perfil, sentado ao contrário na cadeira, é, como a Autora bem sabe, Gustave Caillebotte. as feições corretas, mais parecidas com as de René, estão decerto alindadas pelo olhar amigo e generoso de Renoir, porém, o corpo esguio mas musculado corresponde ao do jovem velejador.
      Por vezes, perguntam à Autora deste livro porque faz do tempo passado um dos motivos principais da sua escrita. [...]»
Isabel Rio Novo, Rua de Paris em dia de chuva, 2020, pp. 93-94

segunda-feira, 8 de junho de 2020

«A repartição dos pães»: «pão é amor...»

RECORTES, final:
[...] Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. [...] Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
        Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.

Clarice Lispector, «A repartição dos pães»

terça-feira, 19 de maio de 2020

«A repartição dos pães»: «NÓS, OS ÁVIDOS»

- mais um excerto do Conto de Clarice:

[...]        Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.               [...]

Clarice Lispector, «A repartição dos pães»

segunda-feira, 18 de maio de 2020

SALADA RUSSA..., Nuno Júdice

SALADA RUSSA COM MAIONESE

Cortadas em pedaços, batatas e cenouras
acrescentam-se a ervilhas e feijão-verde. Depois
de pôr o atum em posta, pode temperar-se
com azeite ou juntar maionese. A natureza
que separou cada bocado desta salada, não
faz parte da ementa, e o resultado
leva-nos a pensar que não é um acaso
a forma como os sabores se juntam,
embora o creme da maioneses possa
fazer com que se abstraia das cores
do conjunto. Uma galáxia de sensações
enrola-nos neste espaço; e o frasco
da maionese roda como a cabeça
de um cometa, enquanto, num intervalo
filosófico, comemos a salada.


Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos, 2010, p.83

domingo, 17 de maio de 2020

«A repartição dos pães»: A MESA - Lispector

- já há tempo que F. não relia este Conto Clariciano.
[...]
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
[..]
Clarice LIspector

terça-feira, 21 de abril de 2020

Queijo, Ratos e Livros (M. E. C.)

- F., que também adora Queijo... 
(todo e qualquer Um; mas aqueles «assaltos» à Tábua da C. da C., entre Abril de 78 e Dezembro de 80...), 
... mas também tem R. como «segundo N. próprio», «está solidário» com o Cronista, nas suas atribulações com Morganhos, ironicamente registadas na Narrativa de Hoje.

RECORTEs:
[...] É uma casa de muito queijo a nossa, de muito queijo e muito pão. Protegemos estes tesouros como podemos, pendurando sacos nas prateleiras, segurados pelo peso dos livros.
[...] Mas somos humanos e, de vez em quando, em noites de guitarra e de farra, esquecemo-nos dumas migalhinhas.
No dia seguinte, temos o prazer de recolher os pequenos berlindes de merda que os ratos deixam em cima da mesa de jantar. Sim, tal era a loucura da comezaina que se dispensaram de ir para trás das estantes. [...]

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

«Deus é como o caroço do pêssego...»; «A visão das plantas»

     [...] O espantalho de braços abertos, como um arcanjo apaixonado pelo vento que, tomando as folhas o despenteava. "Nunca é tarde, capitão Celestino." Tarde começa quando? "Mas as ameixas, sr. padre, caem  a tempo e horas. As sardinheiras dão-se todo o ano. Ainda guardo a queimadura da fogueira da roupa da minha mãe, que me cheirava  a banha e a manteiga. Sabe, sr, padre, Deus é como o caroço do pêssego, cianeto, bolor e peçonha. Alguma vez provou uma dessas amêndoas amargas? O mar findou vai para cem anos."

Djaimilia Pereira de Almeida, A visão das plantas, 2020, p. 41

domingo, 15 de dezembro de 2019

Pastéis de bacalhau, por Ferreira Fernandes

- crónica de hoje («Ode a uma Obra - Prima»), no «DN», lida num Intervalo dos «Envelopes»
RECORTE:
[...] Os pastéis de bacalhau são um concerto, um todo perfeito, a forma de zepelim, que imaginamos moldada por duas pequenas colheres de prata, um entrar breve na fritura e logo saído, os arrepios da pele tostados, mas ela dourada, a massa num casamento feliz e cebolado, a salsa para marcar levemente e para a vista. Cada uns, uma obra de arte. Bons, como condição obrigatória. E pequeninos porque se sabem parte de uma fiada de outros tão bons. [...]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

«A mulher do meio», Raquel Mendes da Silva


87
Não quis chocolate e pedi um chá de zimbro e gengibre com bagas silvestres. Não sei que bagas serão mas se começar a escrever dislates paciência. Na mesa que prefiro está sentada uma mulher que morde umas torradinhas finas. Uma mulher velha com um meio xaile sobre os ombros. Mastiga muito lentamente como que a procurar a melhor posição dos dentes. Do outro lado estão mulheres muito novas que comem tostas e o queijo derretido deixa longos fios suspensos no ar. Eu sou a mulher do meio e o meu chá é rosado dentro da chávena branca. Por me saber de fim-de-semana longo encho-me de uma beatitude rara. Estico as pernas debaixo da mesa e rodo devagar os tornozelos. Primeiro um depois outro. Neste momento sou uma criatura contente.

Irene Mendes da Silva, A mulher do meio (fragmento 87), 2019, Língua Morta, pp. 49-50

segunda-feira, 3 de junho de 2019

sábado, 1 de junho de 2019

Tascas ( o regresso das)




- e da extinção de mais uma Velha Tasca (esta, Alentejana) nasce uma Nova, na Mouraria...; 
do OBS


- e o tasqueiro, de apelido Calhau, vem de Arquitectura...

- Well...

quarta-feira, 29 de maio de 2019

...café manhoso» («Entrei em Londres num...) - Ana Luísa Amaral

LUGARES COMUNS

Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e um pouco da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)

Entrei em Londres 
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia [...]


Ana Luísa Amaral, poema de Coisas de partir, 1993 - relido das pp. 109-111, de Inversos - poesia 1990 - 2010, após ter sido ouvido na voz da autora

na Entrevista a Raquel Marinho da Série  «O poema ensina a Cair»- RECORTE:
- A poesia serve para quê?

A poesia de facto não serve para nada, não tem uma aplicação prática. Com a poesia não se faz uma mesa, não se constrói uma casa. Mas ela é absolutamente fundamental, porque, como toda a arte, assiste-lhe não o pragmatismo, mas o simbólico, e nós, humanos, precisamos do simbólico, que passa sempre pela nossa relação com os outros. Precisamos dele como precisamos de comer ou de dormir. Porque é sua a dimensão estética, mesmo quando fala do horror ou da crueldade. A poesia, tal como eu a concebo, faz-nos, acredito, melhores pessoas, porque nos move (podendo fazer-nos agir) – e nos comove.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

«figos do inverno», Júdice

Estrelas

Desfaço nas mãos os figos, os figos
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. «O que tens aí?», perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos de inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te 
as palavras, e o húmido murmúrio
do amor?

Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês, 2001, p. 20

segunda-feira, 15 de abril de 2019

«O idioma do Café» - J. L. Barreto Guimarães


[é um três (recentes) livros de poesia que veio, para a Zmab, com a lista das 12 Narr.s; também viajou diariamente, entre o GLH e a E. do Paraíso, para leituras dispersas, face à sua amplitude...; 
- o que se transcreve é o último de uma pequena série seleccionada, sobre o MOtivo do Café

20 de Junho

PRIMEIRAS HORAS da manhã. Um Café está sempre à espera, as palavras demoram-se e conversam sobre a mesa, usando o espaço do ar para tocar na fala de outros, contribuindo para criar pelo cruzamento de sílabas, palavras hermafroditas de sentido fragmentário, o idioma do Café.
O burburinho gerado fala uma língua própria, somente inteligível pelo empregado de mesa. Vejo-o serpentear pela sala num jogo de decifração, escutando na mesa da frente a resposta à pergunta lançada na mesa anterior, descodificando murmúrios, traços de inconfidências, irreveláveis segredos.
A moeda sob o recibo vai comprar o seu silêncio.
                                                            
Porto, Café Corcel, 1994-1995
[sublinhados acrescentados]

João Luís Barreto Guimarães, O tempo avança por sílabas, Quetzal, 2019, p. 41 (de Lugares comuns, 2000)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

«Petiscos e Ginjinha» («PAA» de M. J.)

- M. J. pertenceu a um 1.º Bloco de 0910; foi a fase dos CONT., mas também, depois, a (da) estreia de «Metade» do Novo Paraíso (passaram 7 anos e...)
- muito bem «acompanhada» por sensíveis M. + P., que será feito dela?
- (re)localizada a sua «PAA», DOCUM., de 2012;  Tascas... e  COM. TRAD.:



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

«OS PÊSSEGOS», Eugénio de Andrade

«OS PÊSSEGOS»

Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o  contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.

Eugénio de Andrade, O outro nome da terra (da secção «Cumplicidades do verão»), 1988; transcrito da p. 441 de Poesia, 2005

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

«tangerina, tangerina», Eugénio de Andrade

Frutos
Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,  
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Eugénio de Andrade, Pequeno Formato, 1997; transcrito das pp. 548, 9, da edição de Poesia, de 2005

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

«Não sabe a nada»

Não sabe a nada, repetia o marido, antes de se levantar da mesa e se esparramar no sofá, lendo o jornal desportivo. Mordia o lábio, engolia em seco.
Aprendera a cozinhar com a mãe. Não falhava nos tempos, nos temperos e nos apuros. Dia após dia, insistia. Servia-o, expectante.
Não sabe a nada.
Na hora, apetecia-lhe despejar o frasco do piripiri no cozinhado seguinte. Mas insistia. Dia após dia. O elogio viria, um dia. 
Enlouqueceu antes disso.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Feijão, batatas, cebolas...

Feijão, batatas, cebolas, arroz, repetia pelo caminho. Nem mãe nem filho sabiam escrever. 
Fascinante, o equilíbrio do lápis dos fiados na orelha do merceeiro. Cai e rola, ordenou-lhe mentalmente. Não caía. O sr. Zé  baixou-se para aviar batatas. Um piparote e o lápis rolou, ficando oculto no canto das vassouras. O merceeiro, pressionado pela Alzira, foi buscar outro. Apanhou-o e guardou-o na sacola. 
Escondeu-o da mãe. Cheirava divinamente. Sempre que o perdia, pelo cheiro o fazia reaparecer.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Natal (jantar de)

- «Falta muito para o Natal?» - começa M. a perguntar, em público, logo a partir de Janeiro...
- não é disso que aqui se trata, mas sim da Crónica que «vem ao encontro» dessa frase - de M. E. C. - Cronista do «Irreal Quotidiano» (J. G. F.), como Outro não haverá, Hoje...,
                  - de hoje, no Público

Recorte:
[...]
As mesas com ementas fixadas de antemão são as menos alegres. Nalgumas chega-se ao luxo de poder escolher entre o arroz de frutos do mar e o empadão de farinheira. O vinho é da casa, as garrafas estão contadas e "não, não é possível pedir que se faça uma sangria à parte com uma delas, [...]
As máscaras fazem-se pagar. Comem a cara. Quanto àquele ríctus que usamos para fazer de conta que nos estamos a divertir enquanto ouvimos o chato do contencioso a contar como é que se vai da Buraca para Barcarena sem usar o IC19 - ele pode ficar-nos esculpido nas bochechas para sempre.
[...]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

«Canja»

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Os pequenos deuses que dormem nas coisas prosaicas protegem as mais incertas. Isto a propósito de uma canja. Conto. Um dia o mundo desabou-me em cima e uma amiga disse-me: oh, senta-te aí que te vou fazer uma canja com gengibre e hortelã. Fez e eu comi. Depois veio o sono – que é a asa de um anjo – e levou-me pela noite adentro. Convém explicar que o mundo me desaba em cima com regularidade e num destes dias pensei: oh, uma canja, havia de fazer uma canja. Fui procurar nos recessos da arca frigorífica e encontrei com quê. Uma sorte. E umas folhas de hortelã. É certo que nem sempre baixam as asas dos anjos mas soube-me bem.


Ivone Mendes da Silva, Dano e virtude, Língua Morta, 2017 (Julho), p. 132, 133

segunda-feira, 24 de julho de 2017

«Chez Hippolyte» - Luís Afonso

do nono volume da «Granta»,... REcortes da narrativa de Luís Afonso:


Ilustração de André Carrilho
Fotog. da P. 106
[...] Acendi os bicos do fogão ao som de gritos de desespero. Através do passa-pratos vi-os a arrastar o infeliz para uma mesa. «Por favor, não quero jantar, não tenho fome», suplicava. Mas não havia nada que pudesse deter aquela dinâmica violenta. O chefe de sala sentou o cliente-que-no-fundo-era-prisioneiro à bruta numa cadeira e ordenou-lhe que se comportasse com elevação. Tal não se verificou: o cliente [...] agarrou num garfo e tentou espetar-lho na barriga, mas a meio do gesto levou com a coronha da espingarda do escanção na cabeça e tombou, inconsciente. Acordou com as estaladas que o Hippolyte lhe dava na cara. O nosso guru não admitia que a comida esperasse. E eu tinha os primeiros pratos do menu de degustação prontos a servir. O cliente (...) estava agora amarrado à cadeira, (...) e babava-se um bocadito (...) «Vamos ao trabalho», entoou o chef, com o dedo indicador espetado no ar. O chefe de sala veio buscar o primeiro item do menu, [...] e levou-o com a devida cerimónia até à mesa, explicando que eram lascas de imperador marinado com molho de citrinos. O escanção aproximou-se e serviu um copo de Sauvignon blanc du Loire, 2014, [...]. Dado o cliente não ter esboçado qualquer tentativa de pegar nos talheres, quiçá por ter as mãos atadas, [...] o chefe de sala abria-lhe a boca à força e o Hippolyte enfiava-lhe a comida lá para dentro. [...] O segundo prato foi uma sinfonia de folhas frescas da horta, frutos secos e presunto, que teve como companhia um excelente Vin jaune du Jura, 2008. Correu melhor. [...]

Luís Afonso, «Chez Hippolyte», Granta, n.º 9, Maio de 2017, pp. 114, 5

segunda-feira, 3 de julho de 2017

«o mundo é só fogo e pão cozido» - Herberto Helder

- verso (sétimo) do poema da p. 29 de A morte sem mestre - livro de Maio de 14, que M. se recorda de [...]- 
- «repousou», desde então», num dos «montes» que ocupam o tampo da EScriv. que foi do Princeso, e só hoje lhe foi retirado o celofane, porque foi ouvido esse poema, dito pelo próprio, na «Vida Breve», de 28 de Junho...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

«tudo desligado» (Cafés «free wi-fi»)

Outra zona do café [Kibbitznest, em Chicago]
 também repleta de livros e sofás


Cafés livres da [praga da] «REDE»:

«tudo desligado para promover o diálogo»

Curta notícia do OBS, de hoje

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Mangas («A negrinha-loira que vendia...»)

      «As mangas pesavam nas árvores, em cachos, penduradas por fios verdes. Pesavam muito gordas, rosadas, levando os ramos a tocar o chão. Da junção da manga a esse caule que a sustinha, escorriam gotas viscosas de resina transparente.

      As pretas vendiam mangas no chão, em fila, no bazar de Lourenço Marques. As pretas vendiam tudo no chão, em qualquer lado; estendiam uma capulana velha e faziam montinhos de tomates, de raízes, de mangas, de amendoim.
[...]
   Uma branca não vendia mangas a não ser por grosso, a outros brancos que as distribuíssem. Uma branca não vendia mangas, no chão, à porta. Mas eu era uma colonazinha preta, filha de brancos. Uma negrinha loira. E a colonazinha negra que eu era vendia montezinhos de mangas do lado de fora do portão da machamba. Três mangas, com mais uma empoleirada no topo. Quatro mangas: uma quinhenta. Eu sabia que era barato, mas convinha vencer a desconfiança dos negros que passavam a pé, [...] e se deparavam com a colonazinha sentada no chão, de pernas cruzadas, tomando conta da pequena venda de mangas, que assentava sobre um caixote virado, [...] Era preciso que o preço fosse muito atractivo para que ousassem perder o medo e aproximar-se da menina banca-negra como eles. «Quanto é?, perguntavam de longe. «Quinhenta», respondia. E então eles vinham, hesitantes, surpreendidos, mas sorridentes. Lembro o sorriso grande dos negros. O sorriso inteiro, com os dentes muito brancos de mascar ramos, E compravam. Eram as melhores mangas da minha mangueira, muito gordas de sumo e carne, muito coloridas de rosa e salmão. Só uma quinhenta. Quatro.
      Vender mangas ao portão, escondida da minha mãe, era um desobediência que não compreendia nem resistia a praticar.
        Era ser o que tinha nascido.»

Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais, 6.ª ed. (revista e aumentada), 2015, Caminho, pp. 68-70

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"2-8-6!"

- na sequência da republicação (agora na «Santa») do texto em que A. M. Ribeiro refere Pessoa na  perspectiva de Luís Moitinho de Almeida, foi «reencontrado» um dos artigos que «repete, sem esclarecer definitivamente», o «papel» do Álcool em Pessoa 
- no caso, assinado por Pedro Anunciação, no Público de 11 de Nov. de 2002 - AQUI

Recorte:
[...] Fernando Pessoa viveu grande parte dos últimos 15 anos de vida naquela rua do bairro de Campo de Ourique. Extremamente tímido, crescentemente melancólico, Pessoa trocava umas palavras de circunstância enquanto puxava da garrafinha preta que guardava religiosamente na pasta de cabedal. "2-8-6!", pedia o poeta, enigmático. O senhor Trindade entregava-lhe os fósforos (dois tostões), os cigarros (oito tostões) e a garrafa atestada de bagaço (seis tostões). Pessoa agradecia, com a sua voz de catarro, as palavras cortadas aqui e ali pela tosse. Ele fumava pelo menos 80 cigarros por dia. Bebia como uma esponja. Com a sua reserva de 2-8-6 debaixo do braço, o poeta subia as escadas que conduziam ao seu mundo de papéis, personagens e fantasmas nocturnos.
[...]

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cafés (as histórias dos...)

Café Santa Cruz, Coimbra - DIOGO BAPTISTA
Fotografia de um dos 23 «cafés históricos» - Livro e Roteiro - referenciados em artigo do Público

DAQUI

sábado, 29 de outubro de 2016

«um bacalhau de artista» (Alencar)

- «relembrado» por V. P. V. - AQUI

Recortes:
     [...] No Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas, com luzes; - e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilusões da vida, (...) Do outro lado da mesa, os dois ingleses, correctos nos seus fraques pretos, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenada exuberância de meridional.
     A aparição do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
    - Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens: (...)  Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! [...] Pois vocês hão-de vir um dia destes jantar comigo e há-de vir o Ega, hei-de-vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... [...] O que se quer é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e lá vai à saúde do Ega!
     Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
    - E se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...
    Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. [...]
Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, pp. 248-250