domingo, 17 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
Cerejas, Vénus e Vulcano - Estilo
[num destes dias. Mestre M. M. - mentora desta Cave - falava de cerejas na sala MORT, temprariamente ocupada por SIND - para M. M., então]
[...] Blimunda estava ali, com um
cesto cheio de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para
destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão
abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o
padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas
orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltasar, e por isso foi para ele,
sorrindo e oferecendo o cesto. É Vénus e Vulcano, pensou o músico,
perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, [...]
Sentaram-se todos em redor da merenda,
metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não
atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa
como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre
Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio
da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os
caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas
coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais.
José Saramago, Memorial do convento
[no «CBDV», em 2007, em resposta a consulta vinda do Brasil, Eunice Marta analisa estilisticamente parte do recorte acima transcrito ]
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Porco na banha
Recorte da obra referida em anterior E., em leitura, ainda.
34
34
Nico trabalhava com calor nas mãos, alegria constante. Batizaram as crianças na cidade, o menino é Onofre, a menina é Anésia. Os dois de amarelo nos braços de Maria. [...]
Antônio carregava os Gêmeos por tudo, botava-os nun carrinho de mão e saía para o meio do milharal. [...] Maria deixava, o casal voltava com manha e fome. [...]
Nico chegava com um tambor de leite grosso, amarelado de gordura, Maria tomava o creme puro. Às vezes trazia um porco abatido na Fazenda, picava a carne e temperava com alho, sal, cheiro-verde e pimenta. Deixava de um dia para o outro e fritava na banha suína. Os pedaços eram guardados em latas de dez litros com a gordura despejada por cima. Todos os dias Maria tirava com a conha os pedaços conservados na banha endurecida. Aquilo dourava o arroz deixando-o solto e brilhante. Tomates em rodela, cebola e pepino. Molho de gordura de porco, limão, pimenta-de-cheiro e sal. Pela tarde, abacate e mamão com rapadura moída, esfarelada dentro da cuia macia da fruta.
Café o dia todo, mal esfriava no bule se coava outro. [...]
Andréa del Fuego, Os Malaquias, Lisboa, Porto Editora, 2012, pp. 93,94
sábado, 12 de maio de 2012
Sábado - Pães ( A repartição dos)
SUBLIME
Alguns Recortes (- também facilmente este conto pode ser encontrado)
«Pão é amor entre estranhos.» (aforisma com que o Conto encerra)
“A repartição dos pães”
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. [...]
Clarice Lispector (1920 - 1977), in A legião estrangeira (1.ª ed: 1964)
Alguns Recortes (- também facilmente este conto pode ser encontrado)
«Pão é amor entre estranhos.» (aforisma com que o Conto encerra)
“A repartição dos pães”
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. [...]
Passamos
afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando
surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós... Era uma mesa para
homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera?
Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem?
E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos. A
mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca
amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas,
redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis
malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados
como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne
aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em
barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de
uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de
serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram
redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse.
E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de
nada, era hora de comer. [...]
Clarice Lispector (1920 - 1977), in A legião estrangeira (1.ª ed: 1964)
Uma galinha
Só o Recorte inicial deste conhecidíssimo conto de Clarice Lispector - acessível, na totalidade, nos mais diversos locais
Uma Galinha, de Clarice Lispector (1920-1977)
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
in Laços de Família, Editora Nova Fronteira, 15.ª ed. , Rio de Janeiro, 1986, pp. 33-36 [1.ª ed:1960]
Uma Galinha, de Clarice Lispector (1920-1977)
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da
cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a
escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era
gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto
vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um
instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava
no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado.
Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada
com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa,
lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de
almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da
galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula,
escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De
telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a
uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os
caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um
caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista
havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda,
concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e
enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por
um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em
fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um
ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria
contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia
tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual
como se fora a mesma. [...]
in Laços de Família, Editora Nova Fronteira, 15.ª ed. , Rio de Janeiro, 1986, pp. 33-36 [1.ª ed:1960]
Seleccionado
por Ítalo Moriconi, figura na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, Rio de Janeiro,
Objectiva, 2001, pp. 258-260
sexta-feira, 11 de maio de 2012
A mania dos cheiros
[é uma das leituras do momento; no início da Acção, «Nico tinha olho azul, nove anos, Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro» (p. 9) [na página seguinte, a morte dos pais] [Antônio vai ficar anão]
Página 53:
19
Página 53:
19
Antônio, com 16 anos, já não mergulhava nas cômodas da freira, mas roubava meias das meninas. Tinha mania de cheiros, e todos eles eram agradáveis. Da carniça à fervura de uma compota. Gostava de colher e pote, pegar no fundo da vasilha um doce cremoso ou as fatias finas das cidras. Antônio se lambuza dos feitos de cozinha, até da água que enxágua as louças na pia, passa a mão cortando o fluxo da torneira. Era o filho do orfanato. Todo o colégio era dele, os cômodos, as cômodas, os órfãos, as freiras.
Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Isabelle Faria
[G. não conhece a A. referida;
foi a ARQ. A. A. que lhe disse, hoje, que foi P. no Velho Paraíso, «há uns quantos anos», e lhe passou o convite da A.;
fica a imagem do mesmo, que, naturalmente, G. não se atreve a comentar]
![]() |
ISABELLE
FARIA › Seven Years|Seven Sins
- na Casa da Cerca –
Centro de Arte Contemporânea,
- no sábado, 19 de maio de 2012, pelas
17h30.
Exposição patente até 2 de setembro
de 2012.
|
domingo, 6 de maio de 2012
«A janela da cozinha...» - Luísa Costa Gomes
Conto de Luísa Costa Gomes
- que pode ser lido, na íntegra, no endereço colocado após o Recorte inicial [...]
- que pode ser lido, na íntegra, no endereço colocado após o Recorte inicial [...]
A primeira coisa que embateu nos
olhos de Luisinho ao entrar foi a mesa relhena. A grande mesa oval, bem assente
no meio da sala, a transbordar de doçaria e delicadezas. E enquanto os outros
miúdos se atiçavam uns contra os outros e saltavam aos gritos por cima dos
sofás, Luisinho fora o singular a ir direito ao que mais o comovia e especado
diante da mesa posta, religioso ficou a deixar entrar pelas retinas toda aquela
pompa e grandeza. E viu, destacada do todo, antes do mais a taça de cristal,
redonda, muito trabalhada, da musse de
chocolate coberta de nozes; a seu lado, o monumento da tarde, um bolo imenso de
claras com morangos e natas batidas, camadas de diversas naturezas sobrepostas,
todas elas boas, todas elas harmoniosas, conjugadas num macio cilindro branco
que fazia sonhar; vinham depois, deitadas num prato de porcelana chinesa, por
cima de uma suspeita de luta entre dragões, as cornucópias, recheadas com doce
de ovos. Quase se embaciam os óculos do Luisinho ao contemplar as taças de
gelado feito em casa, na máquina de manivela, com sabores de café, de morango,
de chocolate, de natas, dispersas sobre a mesa, quase livres de irem para onde
lhes apetecesse, mais para junto da travessa dos rolinhos de pão-de-forma com
atum e maionese, mais para longe do bolo enfeitado com ziguezagues de natas,
por baixo das quais se sabia estarem um pão-de-ló que não podia sem exagero ser
mais amarelo e um creme de manteiga pecaminoso Desfalece o coração de Luisinho,
imune ao caos infantil a que na sala velozmente se chega, ao passar os olhos
sobre os três pratos grandes, cama real das sanduíches aparadas,com fiambre e
fuagrá autêntico. Recapitulou, saltando a bandeja dos biscoitos de manteiga,
que é comida de miúdo e o palhaço de gelatina, transigência inaceitável ao paladar
selvagem. E demorou-se com prazer no bolo que ele já conhecia, musse cozida no
forno, coberta de chocolate. Na mesinha de apoio, em formação cerrada, os
jarros de limonada com muito gelo, sumo de laranja para os menos exigentes, chá
gelado e mazagrã para as mães.
Luisinho saiu do devaneio com a
miudagem a chegar-se à mesa. Teve um repentino movimento de irritação e
afastou, em dupla cotovelada, dois rapazinhos gémeos, que repetiram o assalto. Luisinho
acabou por se render à evidência de que o arranjo perfeito daquela mesa seria,
daí em diante, não mais que uma lembrança. Os bárbaros atacavam as sanduíches,
davam cabo do palhaço e descompunham o bolo de claras. [...]
Luísa Costa Gomes, «A janela da cozinha como argumento moral, in Contos outra vez, Cotovia, 1997, pp. 45 - 52 - CONTO COMPLETO: AQUI
Eduardo Lourenço:
[...] conto antológico [...] história de um menino bulímico, [...] para quem o mundo tem a consistência de um bolo que ele devora e por quem é devorado, alegoria cruel do nosso mundo de ricos de tudo e de tudo esfomeados»
in «Idos de Setembro», prefácio a Setembro - e outros contos, D. Quixote, 2007, p. 10
Eduardo Lourenço:
[...] conto antológico [...] história de um menino bulímico, [...] para quem o mundo tem a consistência de um bolo que ele devora e por quem é devorado, alegoria cruel do nosso mundo de ricos de tudo e de tudo esfomeados»
in «Idos de Setembro», prefácio a Setembro - e outros contos, D. Quixote, 2007, p. 10
sábado, 5 de maio de 2012
Antepastos, II
- Na quarta, M. M. tinha, sobre a Mesa, um livro sobre a Mesa na I. M.;
- Na quinta, na Grande Sala Mort., estava sentada à esquerda de G.;
- Cruzaram-se conversas e M. M. mostrou um dos seus Desportos: criar, fotografar e «estrafegar»
- Esta nova casa «nasce» então para propor leituras várias, mas todas centradas nos motivos acima expostos
- Viva a Mesa Literária.
- Na quinta, na Grande Sala Mort., estava sentada à esquerda de G.;
- À direita, M. C. L. - que tem um filho, literalmente, no Meio, talvez a caminho de conceituada escola na área da REST.:
- Cruzaram-se conversas e M. M. mostrou um dos seus Desportos: criar, fotografar e «estrafegar»
- Esta nova casa «nasce» então para propor leituras várias, mas todas centradas nos motivos acima expostos
- Viva a Mesa Literária.
Antepasto, I
- longa a história;
- dos bebés, a Mitologia familiar contava que inicialmente, durante o Dia, dormiam na Alcofa, suficientemente perto e longe quer do FOGÃO, quer da MÃE;
- «Casa de Pasto» era o Nome Genérico - a história, hoje, não;
- S. Paulo, Bica, Cais do Sodré, Bairro Alto, Combro, a Geografia;
- No reino dos »COMES E BEBES», então, após cerca de 19-20 anos, mais 15 aproximadamente;
-19 + 15 = 34 -35
- (Primeira ou Grande) Metade de uma Vida, qualquer que seja o lado «por que se queira ir»
Aleluia.
- dos bebés, a Mitologia familiar contava que inicialmente, durante o Dia, dormiam na Alcofa, suficientemente perto e longe quer do FOGÃO, quer da MÃE;
- «Casa de Pasto» era o Nome Genérico - a história, hoje, não;
- S. Paulo, Bica, Cais do Sodré, Bairro Alto, Combro, a Geografia;
- No reino dos »COMES E BEBES», então, após cerca de 19-20 anos, mais 15 aproximadamente;
-19 + 15 = 34 -35
- (Primeira ou Grande) Metade de uma Vida, qualquer que seja o lado «por que se queira ir»
Aleluia.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


