terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

«CALDO-VERDE» , J. C. de Vasconcelos

 CALDO-VERDE

Minha pecadora alma se perde,
a começar, sensual e gulosa,
nesse aroma sem par do caldo-verde
fumegante, em ascensão gloriosa

da velha malga para a sensitiva
pituitária. Tenras couves-galegas,
muito finas, sem talos, na água viva
do caldo, pouca batata, apenas

temperada com azeite de boa
qualidade, um fio e mais um fio
que logo se espraiam. Juntar chouriço,

uma só rodela, comer com broa.
Aspiro fundo. provo, sorvo, rio,
canto. Enquanto subo: ao céu, é isso. 

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), p. 35
[a partir de 03;20, «Ensaio», RTP 3, de 26 de FEV]

domingo, 22 de fevereiro de 2026

MARMELADA («Romance do dia em que se fazia a...»); J. C. de Vasconcelos

 ROMANCE DO DIA EM QUE SE FAZIA A MARMELADA

E chegava o grande dia,
essa doce litania
de fazer a marmelada!

Descascada e bem cortada,
a fruta já aguardava
no panelão do costume,

e já da mercearia
do velho senhor Cabral
viera o açucar branco.

Aceso o fogão de lenha,
começava a pegar o lume.
Minha mãe oficiava
com um vasto instrumental
que na mesa se dispunha:

tabuleiros e tigelas,
facas, pesos e medidas,
mais o papel vegetal

- enquanto pelas janelas
entrava o sol sem cortinas.

Cozida a fruta e passada,
o mesmo peso de açucar
então se lhe acrescentava
- e tudo voltava ao lume.

Poucos minutos depois 
de começar a ferver,
já se sentia o perfume,

e a face da marmelada
num leve ruborescer
de envergonhada pequena,

ia ficando rosada,
ia ficando morena,
bonita que nem vos conto:
um quarto de hora bastava
e ei-la chegada ao ponto.

[...]; [incompleto]

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), pp. 51-54