terça-feira, 3 de março de 2026

«Limonada», Nuno Júdice

[faltam talvez quatro títulos na BiblioPoéticaJudiciana; hoje, de novo se «reordenou» os existentes e escolheu-se o que segue..., tb. para o «Grupo AA»...]

LIMONADA

Às vezes, o limoeiro está cheio e
não sei que fazer a tanto fruto; de outras vezes, só
um ou outro, mirrado e verde, cresce nos ramos
mais altos, e nem lá chego. A árvore é assim: incerta
como a alma dos humanos. Porém, ao contrário 
dela, as folhas conservam a verdura, e renascem
de cada vez que pensamos que o tronco, já seco,
não voltará a encher de folhas os seus ramos. Assim,
em cada ano, vou ver o limoeiro e,
quando está cheio, admiro o amarelo dos frutos que
brilham com o sol quente do verão; ou, nos anos
estéreis, pego nas folhas e tento
sentir, no seu veludo áspero, a memória doce
e azeda do seu sumo. Depois, ao chegar a casa,
corto os limões que não arranquei e espremo-os para
o corpo da alma, sabendo que a árvore me espera,
com os seus ramos intactos, para me dar
conta do estado da terra, e para eu lhe dizer
se aquele sumo que não fiz chegou
para me encher a alma.

Nuno Júdice, O mistério da beleza («Inéditos, Expresso»), 2018, pp. 20-21

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

«CALDO-VERDE» , J. C. de Vasconcelos

 CALDO-VERDE

Minha pecadora alma se perde,
a começar, sensual e gulosa,
nesse aroma sem par do caldo-verde
fumegante, em ascensão gloriosa

da velha malga para a sensitiva
pituitária. Tenras couves-galegas,
muito finas, sem talos, na água viva
do caldo, pouca batata, apenas

temperada com azeite de boa
qualidade, um fio e mais um fio
que logo se espraiam. Juntar chouriço,

uma só rodela, comer com broa.
Aspiro fundo. provo, sorvo, rio,
canto. Enquanto subo: ao céu, é isso. 

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), p. 35
[a partir de 03;20, «Ensaio», RTP 3, de 26 de FEV]

domingo, 22 de fevereiro de 2026

MARMELADA («Romance do dia em que se fazia a...»); J. C. de Vasconcelos

 ROMANCE DO DIA EM QUE SE FAZIA A MARMELADA

E chegava o grande dia,
essa doce litania
de fazer a marmelada!

Descascada e bem cortada,
a fruta já aguardava
no panelão do costume,

e já da mercearia
do velho senhor Cabral
viera o açucar branco.

Aceso o fogão de lenha,
começava a pegar o lume.
Minha mãe oficiava
com um vasto instrumental
que na mesa se dispunha:

tabuleiros e tigelas,
facas, pesos e medidas,
mais o papel vegetal

- enquanto pelas janelas
entrava o sol sem cortinas.

Cozida a fruta e passada,
o mesmo peso de açucar
então se lhe acrescentava
- e tudo voltava ao lume.

Poucos minutos depois 
de começar a ferver,
já se sentia o perfume,

e a face da marmelada
num leve ruborescer
de envergonhada pequena,

ia ficando rosada,
ia ficando morena,
bonita que nem vos conto:
um quarto de hora bastava
e ei-la chegada ao ponto.

[...]; [incompleto]

   José Carlos de Vasconcelos. Os sete sentidos e outros lugares, 2026 (Fevereiro), pp. 51-54