terça-feira, 25 de novembro de 2025

«Jantar de Gala» (de «O Barman do Ritz»)

 - RECORTE(s):

[16 de agosto de 1940]
[...] Do outro lado da Galeria das Maravilhas, estão todos reunidos no Salão Vendôme. onde o embaixador nazi em Paris, Otto Abetz, dá um jantar de gala em honra da nova amizade franco-alemã. [...] Vieiras salteadas com creme de açafrão como entrada, ovos de codorniz escalfados com caviar - Frank roubou dois na cozinha, deliciosos - , noisettes de borrego Eduardo VII, puré de alcachofra e nabos novos glaceados, acompanhados de Château Ausone de 1900. Para terminar, um crocante de calvados e o seu granizado de Fine de Champagne, com uma taça de Roederer Cristal.

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 55

domingo, 16 de novembro de 2025

«dia de peixe» («de «O ouro dos corcundas»)

  - [lido pelas manhãs, nos Transp., está a levar tempo a terminar; alcançada a p. 247, de 279]

RECORTE(s):

    Com pompa, o corregedor anunciou a ementa estabelecida para aquela ocasião, que considerava fora de série:
   - [..] hoje não iremos cear carne, mas toda uma ementa realizada à base de peixe, frugal quanto baste, para não incomodar o Senhor na sua infinita graça. mas farta o suficiente para alegrar as escolhas de vossas senhorias.
     O padre benzeu-se ante aquelas sábias e devotas palavras, ao mesmo tempo que o corregedor continuava a desfiar a meada de comestíveis. Sopa de camarões, pastelinhos de ostras e de bacalhau, pescadinhas fritas, robalo à holandesa, rodovalho assado com ervas finas, lampreia de Penacova e um belo goraz guisado compunham o anunciado rol.
     À lampreia, Fernão Pires torceu o nariz, não só incomodado pela ideia de tragar o ferroso sangue do bicho, mas também pelas dúvidas que o inquietavam acerca da honestidade de manducar semelhante alimária em dia de peixe; o certo é que o padre se alumbrou com a ideia do goraz guisado, pois guardava uma particular predilecção por chupar a cabeça dos ditos, com as quais se entretinha, enfunado de orgulho e meninice.

                                        Paulo Moreiras, O ouro dos corcundas, pp 145-146

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Caves («O Barman do Ritz»)

 [quase terminado...]
RECORTE(s):
[2 de fevereiro de 1944]
[...] Frank esperava sentir uma emoção ao reencontrar a sua cave, mas, ao acender a luz, é tomado por uma vertigem. Aquilo não é uma cave, é uma verdadeira caverna de Ali Babá. Devem estar aqui, pelo menos, cem mil garrafas! Tinha-se esquecido de tamanha abundância. Lembra-se agora de que foram precisas seis semanas para mudar tudo de sítio - Luciano havia sido requisitado para ajudar todas as manhãs, e agora Frank percebe porquê. Percebe, sobretudo, que, [....[ se os três alemães puserem as mãos naquele tesouro [...] a pilhagem será quase certa. Mas como escolher? Anda lá, Frank, deixa o instinto falar. Começa com um Krug 1911, uma colheita quase extinta, uma verdadeira peça de museu. Depois, dois meursaults. Guarda cuidadosamente as garrafas na mochila, embrulhando-as em papel kraft [...] Passa pelos vinhos de Bordéus e repara num haut-brion  1921, Acaba por pegar num pétrus 1909. Menos de dois minutos, ainda tem tempo de ir à Borgonha, onde apanha um romanéee-conti 1933. Estava prestes a subir quando ouve aquele sotaque gutural que se tornou tão familiar;
       - E, cá em baixo, o que há?
    E merda. O tenente atarracado está cheio de zelo. Frank sente o pânico a apoderar-se de si. Que lhes vai dizer? Cem mil garrafas - como poderão justificar aquilo? [...]

    Philippe Collin, O barman do Ritz, p. 233-234