terça-feira, 23 de dezembro de 2025

«um peru...»

 - crónica de A. P. C., da série «A receita do meu Natal: eu, o meu irmão e um peru recheado de memórias; [memórias da C. de C., e de J. V., de entre Abril de 78 e Dez de 80, tem-nas D., e muitas...]

- RECORTE:
[...} Imagine-se a cena: o Frederico e a Ana à volta de um peru, com seringas na mão, tentando injectá-lo com o líquido (vinho da Madeira, limão, sumo de cebola, manteiga e sal), que, a partir de certa altura, começa a espirrar pelos furinhos feitos inicialmente. É verdade que com a experiência as coisas melhoram, mas ainda é um teatro. Isto para não falar (para já) do recheio. [...]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

«frango à Cafreal» OU «a malícia do jindungo»

 - [de manhã, no RT, atingida a p. 135, de 284]

RECORTE(s):

      Depois de o alferes Campelo ter disciplinado o Zacarias, o soba convidou-o para jantar em sua casa. Tratava-se de uma cubata como as outras, mas tinha o telhado de zinco para mostrar riqueza e prestígio. «O homem cozia lá dentro, o zinco tornava a casa um forno. Casa como quem diz. O chão era de terra e tinha uma única divisão. A mulher fez-nos frango à cafreal mas não se sentou connosco [...] Foi o tête-à-tête mais estranho da minha vida. O soba dava-se ares de importância, entre garfadas, cruzava os braços e erguia o queixo como quem responde que sim, sim, mas eu só lhe dizia banalidades sobre o tempo, a beleza da cubata, [...] A terra debaixo das cadeiras estava escura das pingas do nosso suor e do molho do frango. O molho! Era fogo, era inclemência. Era a malícia do jindungo. E eu tive de comer o frango até ao fim. Enquanto o suor me escorria pela testa, costas, pernas. Enquanto me escorria pelas virilhas. Quando a refeição acabou, o solo estava ensopado. Tínhamos largado o suor das nossas almas. [...]»
                                                  Afonso Reis Cabral, O último avô, pp. 130-131
[OUTRO]