quarta-feira, 3 de maio de 2017
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
«tudo desligado» (Cafés «free wi-fi»)
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| Outra zona do café [Kibbitznest, em Chicago] também repleta de livros e sofás |
Cafés livres da [praga da] «REDE»:
«tudo desligado para promover o diálogo»
Curta notícia do OBS, de hoje
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Mangas («A negrinha-loira que vendia...»)
«As mangas pesavam nas árvores, em cachos, penduradas por fios verdes. Pesavam muito gordas, rosadas, levando os ramos a tocar o chão. Da junção da manga a esse caule que a sustinha, escorriam gotas viscosas de resina transparente.
As pretas vendiam mangas no chão, em fila, no bazar de Lourenço Marques. As pretas vendiam tudo no chão, em qualquer lado; estendiam uma capulana velha e faziam montinhos de tomates, de raízes, de mangas, de amendoim.
[...]
Uma branca não vendia mangas a não ser por grosso, a outros brancos que as distribuíssem. Uma branca não vendia mangas, no chão, à porta. Mas eu era uma colonazinha preta, filha de brancos. Uma negrinha loira. E a colonazinha negra que eu era vendia montezinhos de mangas do lado de fora do portão da machamba. Três mangas, com mais uma empoleirada no topo. Quatro mangas: uma quinhenta. Eu sabia que era barato, mas convinha vencer a desconfiança dos negros que passavam a pé, [...] e se deparavam com a colonazinha sentada no chão, de pernas cruzadas, tomando conta da pequena venda de mangas, que assentava sobre um caixote virado, [...] Era preciso que o preço fosse muito atractivo para que ousassem perder o medo e aproximar-se da menina banca-negra como eles. «Quanto é?, perguntavam de longe. «Quinhenta», respondia. E então eles vinham, hesitantes, surpreendidos, mas sorridentes. Lembro o sorriso grande dos negros. O sorriso inteiro, com os dentes muito brancos de mascar ramos, E compravam. Eram as melhores mangas da minha mangueira, muito gordas de sumo e carne, muito coloridas de rosa e salmão. Só uma quinhenta. Quatro.
Vender mangas ao portão, escondida da minha mãe, era um desobediência que não compreendia nem resistia a praticar.
Era ser o que tinha nascido.»
Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais, 6.ª ed. (revista e aumentada), 2015, Caminho, pp. 68-70
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
"2-8-6!"
- na sequência da republicação (agora na «Santa») do texto em que A. M. Ribeiro refere Pessoa na perspectiva de Luís Moitinho de Almeida, foi «reencontrado» um dos artigos que «repete, sem esclarecer definitivamente», o «papel» do Álcool em Pessoa
- no caso, assinado por Pedro Anunciação, no Público de 11 de Nov. de 2002 - AQUI
Recorte:
[...] Fernando Pessoa viveu grande parte dos últimos 15 anos de vida naquela rua do bairro de Campo de Ourique. Extremamente tímido, crescentemente melancólico, Pessoa trocava umas palavras de circunstância enquanto puxava da garrafinha preta que guardava religiosamente na pasta de cabedal. "2-8-6!", pedia o poeta, enigmático. O senhor Trindade entregava-lhe os fósforos (dois tostões), os cigarros (oito tostões) e a garrafa atestada de bagaço (seis tostões). Pessoa agradecia, com a sua voz de catarro, as palavras cortadas aqui e ali pela tosse. Ele fumava pelo menos 80 cigarros por dia. Bebia como uma esponja. Com a sua reserva de 2-8-6 debaixo do braço, o poeta subia as escadas que conduziam ao seu mundo de papéis, personagens e fantasmas nocturnos.
[...]
[...]
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Cafés (as histórias dos...)
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Café Santa Cruz, Coimbra - DIOGO BAPTISTA
|
DAQUI
sábado, 29 de outubro de 2016
«um bacalhau de artista» (Alencar)
- «relembrado» por V. P. V. - AQUI
Recortes:
[...] No Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas, com luzes; - e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilusões da vida, (...) Do outro lado da mesa, os dois ingleses, correctos nos seus fraques pretos, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenada exuberância de meridional.
A aparição do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
- Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens: (...) Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! [...] Pois vocês hão-de vir um dia destes jantar comigo e há-de vir o Ega, hei-de-vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... [...] O que se quer é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e lá vai à saúde do Ega!
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
- E se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...
Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. [...]
Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, pp. 248-250
terça-feira, 4 de outubro de 2016
«lombo, feijoada, favas, grão e tinto» - V. Graça Moura + Vinicius
[Soneto relido num JL «antigo», após «Ultimato» da General Z para Eliminar «o papel Velho e cheio de ácaros» (exp. da Própria, nunca a Outra...) que se acumulava num dos Cadeirões da Sala...]
pois eu gosto de lombo e feijoada,
favas e grão, e tudo o que indigesto
me faz sentir um cidadão honesto
na hora prandial e bem regada
do tinto das colheitas a que presto
a vénia palatal e reiterada,
sem esquecer qualquer bacalhoada,
troixas de ovos, pudins e tudo o resto
que até podem provar-nos que algum deus
afinal sempre existe e é cá dos meus
e às vezes me aproxima do vinicius
e pode mesmo ser que não se morra
assim da grande bouffe à tripa-forra,
e se faça um soneto a esses vícios...
Vasco Graça Moura
Nota: «Este poema foi escrito no tempo e nas circunstâncias que J. C. de Vasconcelos refere na sua coluna da p. 3 e de certa forma 'responde' ao de Vinicius que refere e que aqui se recorda:
Não Comerei de Alface a Verde Pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei-de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: deem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
[transcritos da p. 11 da edição de 14 a 27 de maio de 2014, do dossiê dedicado a V. G. M.]
sexta-feira, 8 de julho de 2016
«Intratável» - Lucia Berlin
[em S. António; 12.º dia de M;
após a leitura dispersa, a sequencial - atingida a p. 327]
Recorte inicial do conto que Lydia Davis caracteriza como... - DAQUI
após a leitura dispersa, a sequencial - atingida a p. 327]
Recorte inicial do conto que Lydia Davis caracteriza como... - DAQUI
De noite, na mais profunda escuridão, os bares e as lojas de bebida estão fechados. Ela pôs a mão debaixo do colchão; a garrafa de meio litro de vodka estava vazia. Afastou os lençóis, levantou-se. Tremia tanto que se sentou no chão. Estava a hiperventilar. Se não bebesse nada, começaria com DT ou teria uma convulsão.
O truque é abrandarmos a respiração e a frequência cardíaca. Mantermo-nos o mais calmos possível até que consigamos deitar mão a uma garrafa. Açucar. Chá com açucar, era isso que se recebia na desintoxicação. Mas ela tremia de mais para se aguentar de pé. Ficou deitada no chão, a inspirar profundamente, como no yoga. Não penses, céus, não penses no estado em que estás senão morres, de vergonha, de AVC. A sua respiração abrandou. Começou a ler lombadas de livros na sua estante. Concentra-te, lê em voz alta. Eduard Abbey, Chinua Achebe, Sherwood Anderson, Jane Austen, Paul Auster, não saltes nenhum, abranda. Quando acabou de ler a parede de livros, sentia-se melhor. Conseguiu levantar-se. Apoiada na parede, a tremer tanto que mal conseguia mexer os pés, conseguiu chegar à cozinha. [...]
Lucia Berlin, Manual para mulheres de limpeza, Alfaguara, 2016, p. 217
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
«Pessoana bêbeda, molhada...» - Castro Mendes
[fecha mais um dia de Envelopes]
PESSOANA BÊBEDA, MOLHADA EM CESÁRIO
Quem deixa a cinza espalhar-se
neste tempo que nos resta?
Bem pode o lume apagar-se,
se ninguém velou na festa...
Bebamos até ao fim
whisky, vinho malvasia,
para nos dar um verso enfim
com pão-de-ló de poesia.
Absinto nos teus braços,
pão-de-ló em malvasia!
Quebremos todos os laços:
beber é mais que poesia!
PESSOANA BÊBEDA, MOLHADA EM CESÁRIO
Quem deixa a cinza espalhar-se
neste tempo que nos resta?
Bem pode o lume apagar-se,
se ninguém velou na festa...
Bebamos até ao fim
whisky, vinho malvasia,
para nos dar um verso enfim
com pão-de-ló de poesia.
Absinto nos teus braços,
pão-de-ló em malvasia!
Quebremos todos os laços:
beber é mais que poesia!
Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, 2010, p. 55
sábado, 19 de dezembro de 2015
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
«Feijões, couves e toucinho»
«[...] Tinham comido feijões e couves, apartadas as mulheres e de pé, e João Francisco Sete-Sóis foi à salgadeira e tirou um bocado de toucinho, que dividiu em quatro tiras, pôs cada uma em sua fatia de pão e distribuiu em redor. Ficou a olhar alerta para Blimunda, mas ela recebeu a sua parte e começou a comer tranquilamente, Não é judia, pensou o sogro. Marta Maria também olhara, inquieta, depois encarou o marido com severidade, como se estivesse a recriminá-lo pela astúcia. Blimunda acabou de comer e sorriu, não adivinhava João Francisco que ela teria comido toucinho mesmo que fosse judia, é outra a verdade que tem que salvar.»
José Saramago, Memorial do Convento, Caminho, 51.ª edição, p. 141
terça-feira, 18 de agosto de 2015
«Fruta e pequeno almoço» - Armando Silva Carvalho
FRUTA
E PEQUENO-ALMOÇO
E chega a vez das frutas.
São elas que enobrecem a
impureza dos dentes,
as cavidades ocultas,
todo o oco do ouro exibido
pelos pobres
em tempos menos austeros, em
pequenas rodas da fortuna
que se traz na boca, um
açaime com poder.
Sobre a mesa, olho ainda as maçãs no escuro de Clarice,
a outra, inaugural,
vermelha, de Sophia, numa pausa em que a escrita
pode ainda derrubar os cálices de ambrósia na cozinha,
e me põe a mastigar o sumo das sílabas
solares.
Porque há o sol sublimepode ainda derrubar os cálices de ambrósia na cozinha,
e me põe a mastigar o sumo das sílabas
solares.
e a manhã ainda é um nome, disse outra poetisa,
surgindo em colação.
Oh, o sopesar das laranjas da infância, sugadas até à casca.
O fabricar dessa música
dourada
a plenos pulmões, engasgava-me de vida,
uma tonta criança de triciclo,
tão só a pedalar com os gomos na garganta,
abrindo pela solidão adentro uma estrada só de fruta,
frágeis mãos ao volante, garoto alucinado.
Caminho dividido pela penumbra da sala, pela polpa da memória,
mas escondo eu a faca que reparte,
o gume agudo e bruto,
a sede de justiça nos pomares, a balança infantil
das mãos de deus?
Sentado penso melhor,
a sofreguidão fez com que empurrasse o
diaa plenos pulmões, engasgava-me de vida,
uma tonta criança de triciclo,
tão só a pedalar com os gomos na garganta,
abrindo pela solidão adentro uma estrada só de fruta,
frágeis mãos ao volante, garoto alucinado.
Caminho dividido pela penumbra da sala, pela polpa da memória,
mas escondo eu a faca que reparte,
o gume agudo e bruto,
a sede de justiça nos pomares, a balança infantil
das mãos de deus?
para o sumo,
apalpo agora o veludo do pêssego,
ensino à língua o sabor do outono, a suave alquimia
das figuras demoradas,
a melodia intrínseca, essa aliança de sabores e saliva,
esse desfazer do eterno sob o céu rapidíssimo
da boca.
apalpo agora o veludo do pêssego,
ensino à língua o sabor do outono, a suave alquimia
das figuras demoradas,
a melodia intrínseca, essa aliança de sabores e saliva,
esse desfazer do eterno sob o céu rapidíssimo
da boca.
Armando Silva
Carvalho, A sombra do mar, Assírio
& Alvim, 2015 (junho), pp. 15, 16
terça-feira, 12 de maio de 2015
A Mão que suspende o Púcaro
[...] «É sabido que Baltasar vai beber, mas não se embriagará. Bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande, como um terramoto profundo que lhe tivesse rachado os alicerces, deixando embora, à superfície, as paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe já encontrada por contrabandistas ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas, bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltasar pega no púcaro cheio de vinho, julga que o vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no ombro, é uma voz que diz, Baltasar, e o púcaro volta à mesa intacto, os amigos sabem que não beberá mais nesse dia.» [...]
José Saramago, Memorial do Convento,51.ª ed., 2011, pp. 315, 316
terça-feira, 5 de maio de 2015
Começar + Picasso
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Pains et Compotier aux Fruits sur une Table (1908-09), de Picasso
CORTESIA: KUNSTMUSEUM E MUSEU NACIONAL DO PRADO
|
- Quatro dias depois do regresso de N. Y., Princeso (= «Ícaro dos Tempos de Agora») já está de novo no Ar, rumo a Nice, via Barcelona - por causa da G. da Tap...
- regressado da Portela, C. «começa« o dia com este quadro - copiado do Público, DAQUI
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
«gente pires, gente manteigueira, gente meia-tigela» - M. do Rosário Pedreira
- no seu «sincronizado» exercício quotidiano de Abertura (literária) do Dia (entre «as 9 e coisa e as 9 e tal»), Maria do Rosário Pedreira faz uma listagem de expressões «figuronas» decorrentes da Cozinha e seus Apetrechos...
- «Na cozinha» - entrada de hoje («9 e 33») no «Horas Extraordinárias» - AQUI
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Almada inédito
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| ANTONIO COTRIM/LUSA - de artigo do Observador - DAQUI |
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
«um feijão branco em sangue» ou «Cesário por Cesariny»
[«abriu» os Quadrados neste Ciclo de 9 meses...; serviu como...]
homenagem a cesário verde
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que
convinha.
chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios, ainda há poetas cá no país!
Mário Cesariny (1923- 2006) , Pena
Capital (1.ª ed:1957)
homenagem a cesário verde
aos pés do burro que olhava
para o mar
depois do bolo-rei comeram-se
sardinhas
com as sardinhas um pouco de
goiabada
e depois do pudim, para um
último cigarro
um feijão branco em sangue e
rolas cozidas
chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios, ainda há poetas cá no país!
sábado, 11 de janeiro de 2014
Viagem à Índia + Goa + «Nostalgia» + Paraíso
- Roteiro geográfico, gastronómico e histórico-cultural
- programa «Uma mesa portuguesa... com certeza», de 4 de Janeiro de 2013, na RTP 1 - a Cicerone, descendente de Gama, Margarida Noronha e Távora, diz que «Goa é um Paraíso»
AQUI:
http://www.rtp.pt/play/p1370/e139597/uma-mesa-portuguesa-com-certeza
- programa «Uma mesa portuguesa... com certeza», de 4 de Janeiro de 2013, na RTP 1 - a Cicerone, descendente de Gama, Margarida Noronha e Távora, diz que «Goa é um Paraíso»
AQUI:
http://www.rtp.pt/play/p1370/e139597/uma-mesa-portuguesa-com-certeza
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Manjar - branco, dia negro
[…] E sendo o calor
tanto, vão-se refrescando os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia, que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam
estes. E se o estômago pede recheio mais substancial, não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadas e
as tâmaras. El-rei, com os infantes
seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de terminado o
acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do
inquisidor-mor, soberbíssima de tigelas
de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões,
de pastéis de carneiro com açúcar e
canela, de cozido à castelhana com
tudo quanto lhe compete, e açafroado,
de manjar-branco, e enfim doces
fritos e frutas do tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque
a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não.
José Saramago, Memorial do Convento, 51.ª ed., 2011, pp. 65, 66
sábado, 18 de maio de 2013
Laranjada, vinho e toalha de mesa.
[T. tinha conservado a Visão de 11 de Março - que há muito só esporadicamente adquire - por causa desta narrativa, intitulada «Família», em princípio autobiográfica, de José Luís Peixoto]
começa assim:
A toalha de mesa era nova e só
se usava nesses almoços de domingo. Havia uma garrafa de laranjada de vidro
grosso ao centro da mesa, ao lado do vinho. Antes, o meu pai tinha-me mandado à
venda. Levava uma alcofa com duas garrafas vazias. O cheiro do vinho tinto
estava entranhado nas paredes. Nessas horas, fim da manhã de domingo,
atravessava as fitas e não estava ninguém na venda, só a caixa das pastilhas de
mentol e uma cadela que não se incomodava com a minha presença. Tinha de bater
com a palma da mão no balcão, que me chegava à altura dos ombros, e, meio
tímido, tinha de chamar: Ti Lourenço, Ti Lourenço. Quando chegava, trazia a sua
calma e o seu bigode. Trocava a garrafa vazia de laranjada por uma cheia e
acertava o gargalo da outra garrafa na torneira do barril. Eu pagava com o
número certo de notas de vinte e moedas de cinco escudos. [...]
e assim termina:
[...] A toalha de mesa é nova. A toalha de mesa é sempre nova.
A LER na CASA da Revista: AQUI
sábado, 20 de abril de 2013
NO CAFÉ - Nuno Júdice
NO CAFÉ DA MITOLOGIA
Perto da porta, as três Parcas pedem chá
e bolos. O criado mostra-lhes o casaco: o botão
pendurado por um fio, a cair. A mais velha
puxa o botão, rebentando
o fio; a do meio enfia a linha na agulha; e
a terceira recose o botão no casaco. As três
Parcas ficaram sem chá nem bolos; e o criado,
como é óbvio, ficou morto.
(Mas o casaco ficou impecável).
Perto da porta, as três Parcas pedem chá
e bolos. O criado mostra-lhes o casaco: o botão
pendurado por um fio, a cair. A mais velha
puxa o botão, rebentando
o fio; a do meio enfia a linha na agulha; e
a terceira recose o botão no casaco. As três
Parcas ficaram sem chá nem bolos; e o criado,
como é óbvio, ficou morto.
(Mas o casaco ficou impecável).
Nuno Júdice, Teoria geral do sentimento, 1999. Transcrito da p. 1016 de Poesia reunida, 1967 - 2000
quarta-feira, 6 de março de 2013
Fugir ao Fisco + Iogurte de Morango - Ana Paula Inácio
Homenagem a 4 poetas e 1 cineasta
Livra-me das tentações
de fugir aos fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
─ foda-se! ─
de morango.
[na Tela, durante dois dias, enquanto enchiam os Envelopes; dos que olharam, a Maioria «não gostou» - talvez por ser recente, não estar nos «Sacrossantos» P. E.s - contudo, no fim do 4.º Bloco, M. R. - para T. , a «N. H.», copiou-o para o seu Cancioneiro de Mão]
Well
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Sétimo Céu
[Recorte de quando Leonor ainda não fora «internada», com a mãe e a irmã, no Convento de S. Félix, em Chelas]
«Leonor consegue a muito custo que a mãe a deixe ir com D.Brites buscar os doces encomendados ao Convento das Inglesinhas. Batem com a pesada aldraba do grande portão que dá para a Rua de Buenos Aires, distraindo-se a menina, enquanto esperam, a olhar as corvetas, as galeotas e as faluas transportando barris de madeira, a cruzarem as águas encapeladas do Tejo, empurradas pelo vento agreste que trepa as colinas com desembaraço, limpando os ares dos fedores e miasmas [...]
A Leonor, que segue cuidando evitar a gravilha para não magoar os pés mal defendidos pelos finos sapatos, chega um persistente cheiro adocicado, numa mistura de suor, de mênstruo e de fruto sovado, que a jovem freira à sua frente solta ao ondular o hábito com o passo ligeiro
Mal entram na largueza espaçosa são apanhados de chofre pela intensidade de novos aromas entre si entrançados: o do arroz-doce a cozer devagar no leite encorpado, o do empadão de lebre a sair do forno e o do guisado de aves. Odores a contrastarem com a delicadeza da água de rosas a ferver com açucar, o do manjar branco e dos queijinhos do céu acabados de saírem do fogo.
Enquanto D. Brites está de conversa com as irmãs cozinheiras, Leonor passeia devagar os olhos gulosos ao longo de duas grandes mesas de mármore, uma repleta de sopeiras fumegantes, de terrinas de caldo de galinha gorda, de travessas de arroz de coelho, e a outra só com sobremesas: covilhetes de marmelada, pratinhos de rebuçados de ovos e caramelos, pratos de louça da Índia com cogulos de pão-de-ló e bolo podre, taças de vidro coalhado com leite de sericaia e ovos moles.
De súbito, porém, algo indefinível muda à sua roda, e ela detecta um novo perfume a libertá-la da roda de doces ainda quentes, do cheiro macerado da carne em vinha-d'alhos, do acre das especiarias, da aspereza da erva cidreira. Essência de chuva que a deixa perplexa e a leva a segui-lhe o rasto, que se tinge primeiro de romã e em seguida de lápis-lazúli. Poalha dourada a levantar-se, esparsa por uma aragem equívoca, espécie de mansa corrente de ar que a faz virar-se para trás receosa.»
Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 29-30
domingo, 21 de outubro de 2012
Boca Autopsicográfica
![]() |
| Cartaz mostra Gastón Acurio (de costas) a comandar a orquestra de produtores e cozinheiros que se juntam no festival Mistura
Alexandra Prado Coelho, «Há uma revolução no Peru e começou pela comida», Público, P2, 07-10-2012, pp. 12-19
TEXTO (e iimagem): AQUI
|
domingo, 23 de setembro de 2012
O legume
[foi uma das Aberturas da «Época de Caça;
- quanto à estatística dos que leram («passar os olhos não conta») a Obra-Tijolo, mesmo que só uns parágrafos, é melhor não a referir; não só T. tem mais em que se ocupar como «o resto não se diz»...
- ridente Jardim, Palácio das Estatísticas...]
Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com
o olho enternecido, passando pelas suiças a mão onde reluzia um diamante. E
nesse momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco,
murmurando:
- Petits pois à la Cohen.
À la Cohen? Cada um verificou o seu menu
mais atentamente. E lá estava, era o legume: Petit pois à la Cohen. Dâmaso, entusiasmado, declarou isto «chique
a valer!» E fez-se, com o champagne que se abria, a primeira saúde ao Cohen!
Esquecera-se a bancarrota, a invasão, a pátria - o jantar
terminava alegremente. Outras saúdes cruzaram-se, ardentes e loquazes: o
próprio Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de criança, bebeu à
Revolução e à Anarquia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o olho
muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremesa alastrava-se, destroçada; no prato
do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a bocados de ananás mastigado.
Dâmaso, todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha inglesa, e
daquele faetonte que era a coisa mais linda que passeava Lisboa. E logo depois
do seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremetera contra Craft, injuriando a
Inglaterra, querendo excluí-la de entre as nações pensantes, ameaçando-a de uma
revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com acenos de
cabeça, imperturbável, partindo nozes.
Os criados serviram o café. E como havia já três longas horas que
estavam à mesa, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na
animação viva que dera o champagne. A sala, de tecto baixo, com os cinco bicos
de gás ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando
agora o aroma forte das chartreu-ses
e dos licores por entre a névoa alvadia do fumo.
Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, pp. 170-171
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Pão Nupcial e Espelho
[para Mestre M. M., de T. do D. - mentora desta Cave - , que obteve mais um ano de Pena - «não suspensa» - no Palácio 1213]
[ Acabadora foi lido em 2, 3 dias, na fase final da Pausa e ganhou a Estante, para onde irá a seguir]
[ Acabadora foi lido em 2, 3 dias, na fase final da Pausa e ganhou a Estante, para onde irá a seguir]
[...] No dia do casamento de Bonacatta, sucederam duas coisas terríveis, além das bodas. A primeira foi que Maria fez aquilo que prometera não fazer. Enquanto estavam todos distraídos a vestir e a pentear a noiva, ela entrou no quarto da mãe [...] mesmo na penumbra, os panos brancos dispostos na cama revelavam a forma dos cestos onde o pão, desenformado naquela manhã, tinha sido posto a repousar. [...] Maria sabia que não tinha muito tempo. Levantou com cuidado, um a um, os panos brancos, examinando o conteúdo dos cestos até encontrar o pão certo, [...]
De um redondo perfeito, ornado com pombas e flores, o pão nupcial da sua irmã parecia ainda mais belo e delicado do que quando o tinha visto na pá do forno: uma filigrana de farinha e água, filha de uma arte ao alcance de poucos.
Enquanto a sua mãe e Bonacatta o preparavam, tinham-na impedido de assistir. e até o simples ato de o ver em segredo era uma violação cujas consequências lhe aqueciam o sangue como uma labareda, estimulada pelo cheiro forte e bom que enchia como um ventre o quarto. [...]
Enquanto estava dobrada a observar o pão, aconteceu, porém, que os olhos se desviassem para o espelho, onde, além do pão, se viu também a si mesma. [...] Cometendo o pecado de imaginar-se através dos olhos do homem da outra, pôs-se de pé e observou-se sem nada compreender. No espelho era ela quem se casava naquele dia, e não Bonacatta, porque, naquele mundo feito de reflexos, o olhar do esposo pousara-se no seu rosto como uma mão num bolinho de amêndoa perfumado. Mas a rapariga do espelho ainda não era uma esposa: o seio jovem premia a camisa de flores desbotadas com uma graça ténue que nem mesmo o tecido ligeiro conseguia valorizar. [...]
Michela Murgia, Acabadora, Lisboa, Bertrand, 2012, 57 - 58
sábado, 25 de agosto de 2012
A cozinha de Françoise, parte II
A pobre Caridade de Giotto [moça de cozinha],
como lhe chamava Swann, encarregada pela Françoise de os [espargos] «pelar»,
tinha-os ao pé de si num cesto, e o seu aspecto era doloroso, como se sentisse
todas as desgraças do mundo; as leves coroas de azul-celeste que cingiam os
espargos por cima das suas túnicas cor-de-rosa estavam finamente desenhadas,
estrela por estrela, tal como no fresco da Virtude de Pádua estão as flores
engrinaldadas em redor da fronte ou espetadas no cesto. E entretanto a
Françoise fazia girar no espeto um daqueles frangos como só ela sabia assar […]
[…] eu desci à
cozinha, era um daqueles dias em que a Caridade de Gioto, muito combalida do
seu parto recente, não era capaz de se levantar; a Françoise, agora já sem
ajuda, estava atrasada. Quando cheguei lá abaixo estava ela, nos fundos da
cozinha que davam para a capoeira, a matar um frango, o qual, com a sua
resistência desesperada e muito natural, mas acompanhada pela Françoise fora de
si, enquanto esta procurava cortar-lhe o pescoço debaixo da orelha aos gritos
de «Maldito animal! Maldito animal!», punha a santa doçura e a unção da nossa
criada um pouco menos em evidência do que o faria, no jantar do dia seguinte,
pela sua pele bordada a ouro como uma casula e pelo seu molho precioso
destilado de um cibório. Depois de morto o frango, a Françoise recolheu-lhe o
sangue, que corria sem lhe afogar o rancor, teve ainda um sobressalto de cólera
e, contemplando o cadáver do seu inimigo, disse ainda uma última vez: «Maldito
animal!» tornei a subir a escada todo a
tremer; o que me apetecia era que
pusessem imediatamente a Françoise na rua. Mas quem me faria os pãezinhos tão
quentes, um café tão perfumado e até… aqueles frangos?... […]
Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 130 – 131
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
ESPARGOS e a cozinha de Françoise - Parte I
[...] À hora em que eu descia para saber a ementa, já a confecção do jantar tinha começado, e a Françoise, comandando as forças da natureza, agora suas ajudantes, como nos contos de fadas em que os gigantes se empregam como cozinheiros, activava as brasas, entregava ao vapor batatas para estufar e apurava ao fogo as obras-primas culinárias inicialmente preparadas em recipientes de ceramistas, que iam das grandes cubas, panelas, caldeirões e peixeiras às terrinas para a caça, formas de pastelaria e potezinhos de natas, passando por uma colecção completa de caçarolas de todas as dimensões. Eu ficava parado a ver em cima da mesa, onde a moça de cozinha acabava de as descascar, as ervilhas alinhadas e contadas como berlindes verdes num jogo; mas o meu fascínio era diante dos espargos, temperados de azul-ultramarino e de cor-de-rosa, e cuja espiga, finamente pincelada de violeta e azul-celeste, se esbate pouco a pouco até ao pé - porém ainda manchado do chão do seu plantio - , através de irisões que não são da terra. Achava que estas tonalidades celestes denunciavam as deliciosas criaturas que se tinham divertido a metamorfosear-se em legumes e que através do disfarce da sua carne comestível e firme nos deixavam detectar, naquelas cores nascentes de aurora, naqueles esboços de arco-íris, naquela extinção de tardes azuis, essa preciosa essência que eu reconhecia ainda quando, durante toda a noite que se seguia a um jantar em que os tivesse comido, elas brincavam, nas suas farsas poéticas e grosseiras como um conto de fadas de Shakespeare, a transformar o meu vaso de noite num vaso de perfume.
Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 129 – 130
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
A Mesa em Combray
[...] É que, ao fundo permanente de ovos, de costeletas, de batatas, de compotas, de bolachas, que ela já nem sequer nos anunciava, a Françoise acrescentava - em conformidade com os trabalhos dos camponeses e dos pomares, com o fruto da maré, com os acasos do comércio, com as gentilezas dos vizinhos e com o seu próprio génio, e tão bem que a nossa ementa [...] reflectia um pouco o ritmo das estações e dos episódios de vida - um rodovalho, porque a vendedora lhe garantira a frescura, um peru, porque tinha visto um bonito no mercado de Roussainville-le-Pin, carnudas alcachofras da horta, porque ainda não no-las tinha preparado daquela maneira, uma perna de carneiro assada porque o ar livre faz um buraco no estômago e ia passar muito tempo até descermos às sete horas, espinafres para variar, alperces porque eram ainda uma raridade, groselhas porque daí a quinze dias já não as haveria, framboesas que o senhor Swann trouxera de propósito, cerejas, as primeiras da cerejeira do jardim [...], queijo cremoso de que eu dantes gostava muito, um bolo de amêndoas porque o encomendara na véspera, um brioche porque era a nossa vez de o oferecer. Quando aquilo tudo acabava, era-nos proposto, preparado expressamente para nós, mas dedicado em especial ao meu pai, que era amador, um creme de chocolate, uma inspiração, uma atenção especial da Françoise, fugidia e leve como uma obra de circunstância, na qual ela pusera todo o seu talento. Quem se recusasse a prová-lo dizendo: «Acabei, já não tenho fome», seria imediatamente humilhado ao nível daqueles brutamontes que, até no presente que um artista lhes oferece de uma das suas obras, olham para o peso e para a matéria, quando o que vale é a intenção e a assinatura. Até deixar uma gota no prato seria uma prova da mesma indelicadeza que levantar-se antes do fim da peça nas barbas de um compositor. [...]
Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido – (tradução de Pedro Tamen) Vol I – Do lado de Swann, Círculo de Leitores, 2003, pp. 78 – 79
domingo, 12 de agosto de 2012
Fava-Rica
![]() |
| «Crónica Urbana- Beco dos Cavaleiros», Alexandra Prado Coelho, texto, João Catarino, Ilustração, «Revista 2», p. 41, Público, 12-08-2012 Além das referências ao único restaurante - na Mouraria - que ainda a serve e a Manolo Carrera - figura da comunidade Galega de Lisboa que G. conheceu nos idos Quentes de 75 e «adjacentes» - um Recorte que o «transportou» para a Infância:
|
[...] É
uma sopa que nos transporta para o tempo em que os trabalhadores de Lisboa
acordavam de madrugada e comiam uma sopa quentinha, trazida pelas mulheres da fava-rica,
numa panela protegida dentro de um cesto de verga, à cabeça. E transporta-nos
para essa frase, que tanto ouvimos
sem
a percebermos bem: “…até vir a mulher da fava-rica”.
[…]
as pessoas gostavam tanto da sopa que estavam dispostas a esperar o tempo que
fosse preciso por ela. E a mulher, nesses tempos antigos, acabava mesmo por
aparecer, apregoando: faaaava-riiica!
Depois o pregão deixou de se ouvir, e as mulheres da fava-rica sobreviveram
apenas em velhas fotos e gravuras. […]
domingo, 17 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Literatura e Estômago ... ( e Fígado e....)
sábado, 2 de junho de 2012
Cerejas, Vénus e Vulcano - Estilo
[num destes dias. Mestre M. M. - mentora desta Cave - falava de cerejas na sala MORT, temprariamente ocupada por SIND - para M. M., então]
[...] Blimunda estava ali, com um
cesto cheio de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para
destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão
abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o
padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas
orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltasar, e por isso foi para ele,
sorrindo e oferecendo o cesto. É Vénus e Vulcano, pensou o músico,
perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, [...]
Sentaram-se todos em redor da merenda,
metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não
atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa
como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre
Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio
da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os
caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas
coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais.
José Saramago, Memorial do convento
[no «CBDV», em 2007, em resposta a consulta vinda do Brasil, Eunice Marta analisa estilisticamente parte do recorte acima transcrito ]
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Porco na banha
Recorte da obra referida em anterior E., em leitura, ainda.
34
34
Nico trabalhava com calor nas mãos, alegria constante. Batizaram as crianças na cidade, o menino é Onofre, a menina é Anésia. Os dois de amarelo nos braços de Maria. [...]
Antônio carregava os Gêmeos por tudo, botava-os nun carrinho de mão e saía para o meio do milharal. [...] Maria deixava, o casal voltava com manha e fome. [...]
Nico chegava com um tambor de leite grosso, amarelado de gordura, Maria tomava o creme puro. Às vezes trazia um porco abatido na Fazenda, picava a carne e temperava com alho, sal, cheiro-verde e pimenta. Deixava de um dia para o outro e fritava na banha suína. Os pedaços eram guardados em latas de dez litros com a gordura despejada por cima. Todos os dias Maria tirava com a conha os pedaços conservados na banha endurecida. Aquilo dourava o arroz deixando-o solto e brilhante. Tomates em rodela, cebola e pepino. Molho de gordura de porco, limão, pimenta-de-cheiro e sal. Pela tarde, abacate e mamão com rapadura moída, esfarelada dentro da cuia macia da fruta.
Café o dia todo, mal esfriava no bule se coava outro. [...]
Andréa del Fuego, Os Malaquias, Lisboa, Porto Editora, 2012, pp. 93,94
sábado, 12 de maio de 2012
Sábado - Pães ( A repartição dos)
SUBLIME
Alguns Recortes (- também facilmente este conto pode ser encontrado)
«Pão é amor entre estranhos.» (aforisma com que o Conto encerra)
“A repartição dos pães”
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. [...]
Clarice Lispector (1920 - 1977), in A legião estrangeira (1.ª ed: 1964)
Alguns Recortes (- também facilmente este conto pode ser encontrado)
«Pão é amor entre estranhos.» (aforisma com que o Conto encerra)
“A repartição dos pães”
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. [...]
Passamos
afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando
surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós... Era uma mesa para
homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera?
Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem?
E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos. A
mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca
amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas,
redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis
malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados
como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne
aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em
barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de
uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de
serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram
redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse.
E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de
nada, era hora de comer. [...]
Clarice Lispector (1920 - 1977), in A legião estrangeira (1.ª ed: 1964)
Uma galinha
Só o Recorte inicial deste conhecidíssimo conto de Clarice Lispector - acessível, na totalidade, nos mais diversos locais
Uma Galinha, de Clarice Lispector (1920-1977)
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
in Laços de Família, Editora Nova Fronteira, 15.ª ed. , Rio de Janeiro, 1986, pp. 33-36 [1.ª ed:1960]
Uma Galinha, de Clarice Lispector (1920-1977)
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da
cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a
escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era
gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto
vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um
instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava
no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado.
Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada
com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa,
lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de
almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da
galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula,
escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De
telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a
uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os
caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um
caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista
havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda,
concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e
enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por
um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em
fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um
ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria
contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia
tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual
como se fora a mesma. [...]
in Laços de Família, Editora Nova Fronteira, 15.ª ed. , Rio de Janeiro, 1986, pp. 33-36 [1.ª ed:1960]
Seleccionado
por Ítalo Moriconi, figura na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, Rio de Janeiro,
Objectiva, 2001, pp. 258-260
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